Respire fundo. A partir de amanhã, uma hora inteirinha será arrancada da programação das emissoras de TV aberta.
As grades
de programação, que já não tem horários rigorosos no Brasil, ficarão
ainda mais confusas. E o telespectador terá que se munir de doses extras
de paciência, ou correr para as alternativas à mão.
Antes de prosseguir, quero deixar bem claro que não sou contra o horário eleitoral gratuito.
Acho uma
solução mais justa do que a que vigora nos Estados Unidos, onde os
canais cobram preços de tabela para exibir propaganda política. É óbvio
que isto beneficia quem tem maior poder econômico.
Mas também
é evidente que o sistema brasileiro precisa de ajustes, e muitos. Para
começar, faz sentido obrigar todas as emissoras transmitirem o horário
eleitoral ao mesmo tempo?
Isto é um prolongamento da mentalidade autoritária que gerou “A Voz do Brasil”.
O programa
de rádio foi criado durante a ditadura Vargas, numa época em que ainda
não existia a televisão. Quem não quisesse ouvir o que o governo tinha a
dizer dispunha de uma única alternativa: o silêncio.
O país
mudou, novos meios surgiram, mas a “Voz” continua aí. O máximo que
algumas emissoras conseguiram foi a permissão para transmiti-la em outro
horário.
Volta e
meia surge a ideia de acabar com ela. Mas o programa talvez sobreviva
porque nos acostumamos com ele: faz parte da paisagem.
O horário
político na TV também é um cabresto eletrônico, que pretende fazer com
que a audiência assista à força algo que, caso tivesse opções, ela não
assistiria.
Acontece
que hoje em dia opção é o que não falta, a começar pela TV paga. É
verdade que sua penetração ainda é pequena no Brasil se comparada à de
outros países, mas ela não para de crescer.
Outra
possível rota de fuga é a internet. As redes sociais já comem uma fatia
considerável do Ibope da TV, e devem ver seu tráfego crescer enquanto a
propaganda política estiver no ar. E também existem o DVD, o VCR, os
videogames, etc. etc.
Ainda assim, com tantas alternativas, as pessoas continuam assistindo ao horário eleitoral.
A
audiência dos canais de TV oscila muito pouco enquanto ele é exibido.
Será que este fenômeno se deve a um súbito interesse pelas propostas
apresentadas? Ou é apenas inércia? Afinal, a novela começa daqui a
pouco.
É verdade que o horário eleitoral de hoje é muito mais divertido que na época do regime militar.
A
famigerada “Lei Falcão” não permitia nada além da exibição do nome e
número dos candidatos. Agora podemos ver todo tipo de bizarrice. Rimos
com os tipos folclóricos e despreparados, e depois corremos para
elegê-los.
Então, se o
horário eleitoral gratuito é inevitável, vamos relaxar e aproveitar.
Volta e meia surge um bordão que se incopora ao vocabulário cotidiano,
como “meu nome é Enéas”.
E há sempre momentos engraçados, que merecem ser garimpados na rede.
Quem aí não está curioso para ver a campanha da Bixa Muda, que concorre a vereadora em Juazeiro, Ceará?
Tony Goes – F5 (Folha de SP online)
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