Lages, 12/02/2013, Correio Lageano
Quando foi eleito para ser o sucessor de João Paulo II e ocupar o trono de Pedro, especialistas em Vaticano afirmaram que a Igreja Católica dava um sinal ao escolher um homem de 78 anos: pois seria um período transitório. No ano passado, o próprio Bento XVI não descartou a hipótese de renunciar caso não tivesse condições físicas para exercer plenamente o seu papel de líder. Mesmo assim, o mundo foi surpreendido ontem com o anúncio feito por Joseph Ratzinger, de renunciar ao papado no próximo dia 28 de fevereiro.
Bento XVI “pegou todos nós de surpresa”, afirmou o porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi, ao comentar a renúncia do papa de quase 86 anos. Lombardi informou em entrevista coletiva sobre a decisão de Joseph Ratzinger, e disse que o papa aproveitou que ontem se reuniria com os cardeais na Cúria para aprovar várias datas de canonizações para anunciar sua decisão.
“Ele o fez em latim, no final do consistório de cardeais”, afirmou o porta-voz, que se referiu à carta escrita pelo papa para anunciar sua renúncia, medida que adotou por motivos de idade, ao notar que lhe faltam forças para liderar a Igreja Católica.
“Após ter examinado perante Deus reiteradamente minha consciência, cheguei à certeza de que, pela idade avançada, já não tenho forças para exercer adequadamente o Ministério de Pedro. Sou muito consciente que este Ministério, por sua natureza espiritual, deve ser realizado não unicamente com obras e palavras, mas também e em não menor grau sofrendo e rezando”, escreveu o papa, segundo Lombardi.
O porta-voz também destacou que o papa tomou a decisão em plenas faculdades mentais e lembrou que a renúncia de um papa está prevista no Código de Direito Canônico, que estabelece que para que seja válida é necessário que seja de livre vontade do pontífice.
A última vez que um papa havia abdicado do cargo foi há quase 600 anos. Em 1415, o Gregório XII anunciou a saída do cargo para encerrar uma disputa com um candidato rival à Santa Sé. Na época, a Igreja Católica vivia uma grande crise, chamada de Grande Cisma do Ocidente, que durou de 1378 a 1417 e levou a três sedes papais: Roma, Avignon (França) e Pisa.
Consequentemente, o poder passou a ser disputado por três pontífices, um Papa (de Roma) e dois Antipapas (de Avignon e Pisa). Gregório XII enfrentou a concorrência de Bento XIII e Alexandre V. Em 1415, Gregório XII abdicou do cargo no Concílio de Constança, após grande pressão dentro da Igreja, e morreu dois anos depois. O concílio elegeu em 1417 o Papa Martinho V.
A carta de Bento XVI
“Caríssimos irmãos,
Convoquei-vos para este consistório não só por causa das três canonizações, mas também para vos comunicar uma decisão de grande importância para a vida da igreja. Depois de ter examinado repetidamente a minha consciência diante de Deus, cheguei à certeza de que as minhas forças, devido à idade avançada, já não são idôneas para exercer adequadamente o ministério petrino.
Estou bem consciente de que este ministério, pela sua essência espiritual, deve ser cumprido não só com as obras e com as palavras, mas também e igualmente sofrendo e rezando. Todavia, no mundo de hoje, sujeito a rápidas mudanças e agitado por questões de grande relevância para a vida da fé, para governar a barca de São Pedro e anunciar o Evangelho, é necessário também o vigor quer do corpo quer do espírito; vigor este, que, nos últimos meses, foi diminuindo de tal modo em mim que tenho de reconhecer a minha incapacidade para administrar bem o ministério que me foi confiado.
Por isso, bem consciente da gravidade deste ato, com plena liberdade, declaro que renuncio ao ministério de bispo de Roma, sucessor de São Pedro, que me foi confiado pela mão dos cardeais em 19 de abril de 2005, pelo que, a partir de 28 de fevereiro de 2013, às 20h, a sede de Roma, a sede de São Pedro, ficará vacante e deverá ser convocado, por aqueles a quem tal compete, o conclave para a eleição do novo Sumo Pontífice.
Caríssimos irmãos, verdadeiramente de coração vos agradeço por todo o amor e a fadiga com que carregastes comigo o peso do meu ministério, e peço perdão por todos os meus defeitos. Agora confiemos a Santa Igreja à solicitude do seu Pastor Supremo, Nosso Senhor Jesus Cristo, e peçamos a Maria, sua Mãe Santíssima, que assista, com a sua bondade materna, os padres cardeais na eleição do novo Sumo Pontífice. Pelo que me diz respeito, nomeadamente no futuro, quero servir de todo o coração, com uma vida consagrada à oração, a Santa Igreja de Deus.
Vaticano, 10 de Fevereiro de 2013
Benedictus PP XVI”
Marca de Bento XVI é a fé e a cultura
Autoridade máxima da igreja em Lages, o bispo Dom Irineu Andreassa também foi pego de surpresa com a renúncia de Bento XVI. Ordenado pelo papa em 2010, o conheceu pessoalmente quando pediu para que o sumo pontífice fizesse uma prece por Lages.
CL: O que significa a renúncia para a Igreja Católica e para os fiéis?
Dom Irineu Andreassa: Em primeiro lugar, a renúncia não era esperada, pegou o mundo de sopetão. A Igreja Católica tem dois chefes, um visível e um invisível. O chefe da igreja é Jesus Cristo. Ele é invisível, e o chefe visível é o papa. Este tem todo o respeito dos cristãos por ser o sucessor de Pedro. Cristo é fundador e confiou a igreja a um líder, que no caso é o papa. No deocorrer da história já teve papa que renunciou, mas o Bento não era esperado. A minha reação é de um respeito muito profundo pela atitude dele. Um homem de fé, com uma riqueza cultural profunda.
CL:A última renúncia foi há 597 anos. Se abre possibilidade para novos papas renunciarem nesta era mais moderna?
Dom Irineu: Sim. Possibilidade sempre há. Desde que não seja fuga. No caso de Bento, não é fuga. Pelo que a gente sabe, foi um parecer dos próprios médicos. Por exemplo, parece que já estavam o proibindo de fazer viagens. O papa quer que a caminhada evangelizadora da igreja não morra, não perca qualidade por causa da saúde dele. Ele quer que a igreja dê continuidade a essa missão evangelizadora. Para ele, a limitação iria prejudicar essa missão. Ele coloca que as mudanças são rápidas demais. Com toda essa carga, acho viável ele confiar este trabalho para um outro. Admiro o gesto e a atitude dele.
CL:Essa renúncia seria fruto de uma lição aprendida sobre a agonia pública que João
Dom Irineu: Paulo II viveu? O papa Bento XVI não quis que sua saúde se tornasse um espetáculo de mídia, como foi o caso de João Paulo II? Eu não diria do papa João Paulo II um espetáculo de mídia, mas um testemunho de fé muito grande. Até o último momento ele soube conquistar de todo cristão, com saúde ou com doença, alegre ou triste. Será que o Bento XVI seria falta do testemunho? Eu não diria isso. Acho que é uma decisão. A decisão de João Paulo II foi pessoal, ele quis continuar. Muitos médicos queriam que ele continuasse sua vida. Agora, o Bento XVI, com todas as decisões médicas, tomou uma decisão pessoal para que o mundo pudesse colher os frutos cristãos com outro papa a frente.
CL:Qual o legado que ele vai deixar para o igreja?
Dom Irineu: Um homem de fé, homem de cultura. A força dele foi a cultura. Ele é muito sábio, muito de Deus.
CL:Para que lado vai a igreja?
Dom Irineu: Quando foi a eleição do Bento XVI, muitos achavam que ela iria regredir, mas foi um momento importante. O espírito de Deus fala para onde vai a igreja. É difícil falar se será um papa progressista, moderado... Acho que o Espírito Santo guia a igreja.
CL:Na eleição de Bento XVI houve conversas (não há como checar por causa do segredo dos votos) de que quase se escolheu um cardeal argentino. Existe a possibilidade de sair um papa não-europeu?
Dom Irineu: Existe a possibilidade de sair um papa de qualquer parte do mundo. O importante é que ninguém entre lá querendo ser papa. Essa não é a atitude de nossos cardeais. Quem entra lá é pela força do Espírito Santo. Pode ser brasileiro, americano, italiano, africano... Isso é surpresa.
CL:O senhor conhece pessoalmente o papa. Quais as impressões pessoais dele?
Dom Irineu: Ele transmitiu uma mensagem muito bonita para nós bispos novos. Deu uma força muito grande para nós, mostrando a responsabilidade do nosso ministério. Cada um teve a oportunidade de cumprimentá-lo pessoalmente. Disse a ele “obrigado pelo teu fiat” (obrigado pelo teu sim dado à igreja) e pedi uma prece a minha diocese em Lages, no Brasil. Foi um momento muito forte.
CL:A igreja tende a seguir a doutrina de João Paulo II e Bento XVI?
Dom Irineu: João Paulo II era a expressão da ternura, era um ‘paizão’. O Bento XVI é a expressão da fé e da cultura. Os dois são uma riqueza da igreja. Cada um com sua característica.
CL:Deixando o papado, Bento XVI fará o quê?
Dom Irineu: Acredito que ele pode se recolher. Pode ser na Alemanha, na Itália...Vai escolher um lugar. Agora, ele está em Castel Gandolfo, a residência de verão do papa.
CL:O Vaticano fala que não existe doença, que foi somente a idade que influenciou na decisão. Ao mesmo tempo foi um dos mais velhos eleitos. Não se pensou que isso pudesse acontecer?
Dom Irineu: O irmão dele disse que já sabia. A gente percebia a limitação. Fizeram um carrinho elétrico para ele ir para os lugares, porque tinha dificuldades em andar. Acho que ele fez seu papado com testemunho. Foi um período rico para a igreja.
Dom Oneres ressalta a unidade da igreja
“Ponderado, calmo, preocupado com os grandes problemas da igreja”. Assim o bispo emérito de Lages, dom João Oneres Marchiori define Bento XVI, que conheceu desde quando o papa ainda era o cardeal Joseph Ratzinger.
Na penúltima vez que esteve em Roma, no ano passado, Dom Oneres teve uma breve conversa com o papa a quem relatou que já era emérito. O sumo pontífice brincou, dizendo que o bispo ainda era jovem. “Giovane no, Giovanni”, disse o brasileiro em um trocadilho italiano, que diz “jovem não, João”. Com esse episódio, o bispo emérito de Lages define a personalidade do papa.
Para dom Oneres, Bento XVI é um dos maiores teólogos vivos, dono de uma inteligência fora do comum e uma pessoa muito objetiva. “Nem sempre agradava porque dizia o que tinha de dizer. Era um papa muito objetivo em seus discursos, pouco especulativo”.
O bispo relembra que Bento XVI ainda não renunciou (o que deve acontecer efetivamente dia 28 de fevereiro) e recebeu a notícia com surpresa, mas acredita que um bom papa virá.
Sobre a eleição, ele cita que não há nada definido. Diz isso com experiência, pois acompanha as escolhas dos papas desde João XXIII, em 1958. Dom Oneres conta que, naquela época estudava em Roma, e era dado como certo a eleição de certo cardeal. “Já o cumprimentavam como papa antes da eleição”. Quando a fumaça branca da capela de São Pedro subiu aos céus, a surpresa na escolha do nome foi geral. O mesmo aconteceu com Paulo VI, João Paulo I e João Paulo II.
O então cardeal Joseph Ratzinger, porém, era um dos favoritos, por estar entre os que governaram o Vaticano na vacância do trono de São Pedro após a morte de João Paulo II. As especulações giravam em torno do que o alemão conseguiria articular. Seu nome, porém, estava na sombra do hondurenho dom Oscar Andres Rodríguez Maradiaga. O desejo de um latino-americano ser o próximo papa continua.
O bispo exalta o trabalho de Bento XVI para dar unidade à igreja, uma vez que nomeou cardeais no mundo inteiro, dialogou com outras religiões e ainda tratou com transparência o problema da pedofilia dentro da igreja.
Repercussão em outras igrejas
Centro Evangelístico de Lages
Pastor Mauro Almeida
Igreja Batista
Pastor Jota Machado
Futuro papa deve se encontrar com jovens no Brasil em julho
A Jornada Mundial da Juventude, que acontece em julho, no Rio de Janeiro contará com a presença do futuro pontífice. Isso é o que afirma o arcebispo da capital carioca Dom Orani Tempesta.
Em Lages, Marcelo Rosa Ramos é uma das pessoas que estão se organizando para participar do evento. Segundo ele, a Diocese de Lages está preparando uma excursão para o Rio de Janeiro.
Ele afirma que o compromisso é do pontífice, ou seja, independe de quem esteja exercendo o cargo papal. Marcelo conta que recebeu com surpresa a notícia da renúncia, apesar de já notar o cansaço físico de Bento XVI. Ao contrário de João Paulo II, que, mesmo doente dizia que jamais iria deixar o cargo, enquanto o futuro papa emérito já cogitou a renúncia por mais de uma vez.
Boff afirma que são duas personalidades numa pessoa
Apesar de serem a mesma pessoa, Joseph Ratzinger e o Papa Bento XVI eram duas personalidades diferentes. A opinião é do teólogo e professor universitário Leonardo Boff, brasileiro que conviveu com o líder católico que anunciou o fim de seu pontificado. Boff integrou a ordem franciscana e um dos expoentes da Teologia da Libertação.
“Uma coisa é o Ratzinger professor e acadêmico, que era extremamente gentil e inteligente, além de amigo dos estudantes. Dava metade do salário aos estudantes latinos e da África. Outra coisa é o Bento XVI, que exerce função autoritária e centralizadora, sem misericórdia com homossexuais e [adeptos da] camisinha”, disse Boff.
O teólogo define Ratzinger da fase pré-papal como um pastor e professor extremamente erudito e de fácil acesso. “Era pessoa simples que, ao se tornar cardeal, mudou de comportamento e passou a assumir posições duras. Tratava com luvas de pelica os bispos conservadores e com dureza teólogos da libertação que seguiam os pobres”.
Segundo Boff, dois aspectos caracterizaram o Ratzinger da fase posterior.
“Primeiro, o confronto com a modernidade, no encontro com as culturas e com outras religiões. Tinha a compreensão de que a Igreja Católica era o único porta-voz da verdade, e a única capaz de dar rumo a toda humanidade. Por isso, teve dificuldades com muçulmanos e judeus”.
O segundo aspecto tem origem à época em que era cardeal. “Ele pedia aos bispos que impedissem que padres pedófilos fossem levados aos tribunais civis. Na medida em que a imprensa mostrou que havia não apenas padres, mas também bispos e cardeais suspeitos dessa prática, o Vaticano teve de aceitar a realidade”, declarou Boff.
Já a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) divulgou nota ontem na qual classificou como sinal de “humildade e grandeza” a razão apresentada por Bento XVI para justificar a renúncia.
“Acolhemos com amor filial as razões apresentadas por Sua Santidade, sinal de sua humildade e grandeza, que caracterizaram os oito anos de seu pontificado”, diz o texto da nota da CNBB, assinado pelo presidente, dom Raymundo Damasceno Assis; pelo vice, dom José Belisário da Silva; e pelo secretário-geral, dom Leonardo Ulrich Steiner. De acordo com o texto, o papa é um “teólogo brilhante” e entrará para a história como o “Papa do amor”.
Na nota, a CNBB também se diz “grata” a Bento XVI “pelo carinho e apreço que sempre manifestou para com a Igreja no Brasil”.
Brasil tem 5 cardeais que participarão do conclave
Cinco cardeais brasileiros participarão do conclave que elegerá o sucessor de Bento 16. Segundo o Vaticano, há 119 cardeais aptos a votar. Para poder votar na escolha do papa, o cardeal precisa ter menos de 80 anos.
O Brasil nove integrantes no Colégio Cardinalício do Vaticano, mas quatro deles já estão além da idade limite. Os brasileiros que poderão votar são dom Cláudio Hummes, de 78 anos, ex-arcebispo, dom Geraldo Majella Agnelo, de 79, arcebispo emérito de Salvador, dom Odilo Scherer, de 63, arcebispo de São Paulo, dom Raymundo Damasceno Assis, de 76, arcebispo de Aparecida, e dom João Braz de Aviz, de 64, arcebispo de Brasília.
O catarinense dom Eusébio Scheid, arcebispo emérito do Rio de Janeiro e ex-arcebispo de Florianópolis, está fora do conclave por ter completado 80 anos em dezembro. Também ultrapassaram a idade limite Paulo Evaristo Arns, 91 anos, dom Serafim Araújo, de 88, e dom José Freire Falcão, 87.
Fotos: Valter Campanato/ABR e Thomas Michel
Quando foi eleito para ser o sucessor de João Paulo II e ocupar o trono de Pedro, especialistas em Vaticano afirmaram que a Igreja Católica dava um sinal ao escolher um homem de 78 anos: pois seria um período transitório. No ano passado, o próprio Bento XVI não descartou a hipótese de renunciar caso não tivesse condições físicas para exercer plenamente o seu papel de líder. Mesmo assim, o mundo foi surpreendido ontem com o anúncio feito por Joseph Ratzinger, de renunciar ao papado no próximo dia 28 de fevereiro.
Bento XVI “pegou todos nós de surpresa”, afirmou o porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi, ao comentar a renúncia do papa de quase 86 anos. Lombardi informou em entrevista coletiva sobre a decisão de Joseph Ratzinger, e disse que o papa aproveitou que ontem se reuniria com os cardeais na Cúria para aprovar várias datas de canonizações para anunciar sua decisão.
“Ele o fez em latim, no final do consistório de cardeais”, afirmou o porta-voz, que se referiu à carta escrita pelo papa para anunciar sua renúncia, medida que adotou por motivos de idade, ao notar que lhe faltam forças para liderar a Igreja Católica.
“Após ter examinado perante Deus reiteradamente minha consciência, cheguei à certeza de que, pela idade avançada, já não tenho forças para exercer adequadamente o Ministério de Pedro. Sou muito consciente que este Ministério, por sua natureza espiritual, deve ser realizado não unicamente com obras e palavras, mas também e em não menor grau sofrendo e rezando”, escreveu o papa, segundo Lombardi.
O porta-voz também destacou que o papa tomou a decisão em plenas faculdades mentais e lembrou que a renúncia de um papa está prevista no Código de Direito Canônico, que estabelece que para que seja válida é necessário que seja de livre vontade do pontífice.
A última vez que um papa havia abdicado do cargo foi há quase 600 anos. Em 1415, o Gregório XII anunciou a saída do cargo para encerrar uma disputa com um candidato rival à Santa Sé. Na época, a Igreja Católica vivia uma grande crise, chamada de Grande Cisma do Ocidente, que durou de 1378 a 1417 e levou a três sedes papais: Roma, Avignon (França) e Pisa.
Consequentemente, o poder passou a ser disputado por três pontífices, um Papa (de Roma) e dois Antipapas (de Avignon e Pisa). Gregório XII enfrentou a concorrência de Bento XIII e Alexandre V. Em 1415, Gregório XII abdicou do cargo no Concílio de Constança, após grande pressão dentro da Igreja, e morreu dois anos depois. O concílio elegeu em 1417 o Papa Martinho V.
A carta de Bento XVI
“Caríssimos irmãos,
Convoquei-vos para este consistório não só por causa das três canonizações, mas também para vos comunicar uma decisão de grande importância para a vida da igreja. Depois de ter examinado repetidamente a minha consciência diante de Deus, cheguei à certeza de que as minhas forças, devido à idade avançada, já não são idôneas para exercer adequadamente o ministério petrino.
Estou bem consciente de que este ministério, pela sua essência espiritual, deve ser cumprido não só com as obras e com as palavras, mas também e igualmente sofrendo e rezando. Todavia, no mundo de hoje, sujeito a rápidas mudanças e agitado por questões de grande relevância para a vida da fé, para governar a barca de São Pedro e anunciar o Evangelho, é necessário também o vigor quer do corpo quer do espírito; vigor este, que, nos últimos meses, foi diminuindo de tal modo em mim que tenho de reconhecer a minha incapacidade para administrar bem o ministério que me foi confiado.
Por isso, bem consciente da gravidade deste ato, com plena liberdade, declaro que renuncio ao ministério de bispo de Roma, sucessor de São Pedro, que me foi confiado pela mão dos cardeais em 19 de abril de 2005, pelo que, a partir de 28 de fevereiro de 2013, às 20h, a sede de Roma, a sede de São Pedro, ficará vacante e deverá ser convocado, por aqueles a quem tal compete, o conclave para a eleição do novo Sumo Pontífice.
Caríssimos irmãos, verdadeiramente de coração vos agradeço por todo o amor e a fadiga com que carregastes comigo o peso do meu ministério, e peço perdão por todos os meus defeitos. Agora confiemos a Santa Igreja à solicitude do seu Pastor Supremo, Nosso Senhor Jesus Cristo, e peçamos a Maria, sua Mãe Santíssima, que assista, com a sua bondade materna, os padres cardeais na eleição do novo Sumo Pontífice. Pelo que me diz respeito, nomeadamente no futuro, quero servir de todo o coração, com uma vida consagrada à oração, a Santa Igreja de Deus.
Vaticano, 10 de Fevereiro de 2013
Benedictus PP XVI”
Marca de Bento XVI é a fé e a cultura
Autoridade máxima da igreja em Lages, o bispo Dom Irineu Andreassa também foi pego de surpresa com a renúncia de Bento XVI. Ordenado pelo papa em 2010, o conheceu pessoalmente quando pediu para que o sumo pontífice fizesse uma prece por Lages.
CL: O que significa a renúncia para a Igreja Católica e para os fiéis?
Dom Irineu Andreassa: Em primeiro lugar, a renúncia não era esperada, pegou o mundo de sopetão. A Igreja Católica tem dois chefes, um visível e um invisível. O chefe da igreja é Jesus Cristo. Ele é invisível, e o chefe visível é o papa. Este tem todo o respeito dos cristãos por ser o sucessor de Pedro. Cristo é fundador e confiou a igreja a um líder, que no caso é o papa. No deocorrer da história já teve papa que renunciou, mas o Bento não era esperado. A minha reação é de um respeito muito profundo pela atitude dele. Um homem de fé, com uma riqueza cultural profunda.
CL:A última renúncia foi há 597 anos. Se abre possibilidade para novos papas renunciarem nesta era mais moderna?
Dom Irineu: Sim. Possibilidade sempre há. Desde que não seja fuga. No caso de Bento, não é fuga. Pelo que a gente sabe, foi um parecer dos próprios médicos. Por exemplo, parece que já estavam o proibindo de fazer viagens. O papa quer que a caminhada evangelizadora da igreja não morra, não perca qualidade por causa da saúde dele. Ele quer que a igreja dê continuidade a essa missão evangelizadora. Para ele, a limitação iria prejudicar essa missão. Ele coloca que as mudanças são rápidas demais. Com toda essa carga, acho viável ele confiar este trabalho para um outro. Admiro o gesto e a atitude dele.
CL:Essa renúncia seria fruto de uma lição aprendida sobre a agonia pública que João
Dom Irineu: Paulo II viveu? O papa Bento XVI não quis que sua saúde se tornasse um espetáculo de mídia, como foi o caso de João Paulo II? Eu não diria do papa João Paulo II um espetáculo de mídia, mas um testemunho de fé muito grande. Até o último momento ele soube conquistar de todo cristão, com saúde ou com doença, alegre ou triste. Será que o Bento XVI seria falta do testemunho? Eu não diria isso. Acho que é uma decisão. A decisão de João Paulo II foi pessoal, ele quis continuar. Muitos médicos queriam que ele continuasse sua vida. Agora, o Bento XVI, com todas as decisões médicas, tomou uma decisão pessoal para que o mundo pudesse colher os frutos cristãos com outro papa a frente.
CL:Qual o legado que ele vai deixar para o igreja?
Dom Irineu: Um homem de fé, homem de cultura. A força dele foi a cultura. Ele é muito sábio, muito de Deus.
CL:Para que lado vai a igreja?
Dom Irineu: Quando foi a eleição do Bento XVI, muitos achavam que ela iria regredir, mas foi um momento importante. O espírito de Deus fala para onde vai a igreja. É difícil falar se será um papa progressista, moderado... Acho que o Espírito Santo guia a igreja.
CL:Na eleição de Bento XVI houve conversas (não há como checar por causa do segredo dos votos) de que quase se escolheu um cardeal argentino. Existe a possibilidade de sair um papa não-europeu?
Dom Irineu: Existe a possibilidade de sair um papa de qualquer parte do mundo. O importante é que ninguém entre lá querendo ser papa. Essa não é a atitude de nossos cardeais. Quem entra lá é pela força do Espírito Santo. Pode ser brasileiro, americano, italiano, africano... Isso é surpresa.
CL:O senhor conhece pessoalmente o papa. Quais as impressões pessoais dele?
Dom Irineu: Ele transmitiu uma mensagem muito bonita para nós bispos novos. Deu uma força muito grande para nós, mostrando a responsabilidade do nosso ministério. Cada um teve a oportunidade de cumprimentá-lo pessoalmente. Disse a ele “obrigado pelo teu fiat” (obrigado pelo teu sim dado à igreja) e pedi uma prece a minha diocese em Lages, no Brasil. Foi um momento muito forte.
CL:A igreja tende a seguir a doutrina de João Paulo II e Bento XVI?
Dom Irineu: João Paulo II era a expressão da ternura, era um ‘paizão’. O Bento XVI é a expressão da fé e da cultura. Os dois são uma riqueza da igreja. Cada um com sua característica.
CL:Deixando o papado, Bento XVI fará o quê?
Dom Irineu: Acredito que ele pode se recolher. Pode ser na Alemanha, na Itália...Vai escolher um lugar. Agora, ele está em Castel Gandolfo, a residência de verão do papa.
CL:O Vaticano fala que não existe doença, que foi somente a idade que influenciou na decisão. Ao mesmo tempo foi um dos mais velhos eleitos. Não se pensou que isso pudesse acontecer?
Dom Irineu: O irmão dele disse que já sabia. A gente percebia a limitação. Fizeram um carrinho elétrico para ele ir para os lugares, porque tinha dificuldades em andar. Acho que ele fez seu papado com testemunho. Foi um período rico para a igreja.
Dom Oneres ressalta a unidade da igreja
“Ponderado, calmo, preocupado com os grandes problemas da igreja”. Assim o bispo emérito de Lages, dom João Oneres Marchiori define Bento XVI, que conheceu desde quando o papa ainda era o cardeal Joseph Ratzinger.
Na penúltima vez que esteve em Roma, no ano passado, Dom Oneres teve uma breve conversa com o papa a quem relatou que já era emérito. O sumo pontífice brincou, dizendo que o bispo ainda era jovem. “Giovane no, Giovanni”, disse o brasileiro em um trocadilho italiano, que diz “jovem não, João”. Com esse episódio, o bispo emérito de Lages define a personalidade do papa.
Para dom Oneres, Bento XVI é um dos maiores teólogos vivos, dono de uma inteligência fora do comum e uma pessoa muito objetiva. “Nem sempre agradava porque dizia o que tinha de dizer. Era um papa muito objetivo em seus discursos, pouco especulativo”.
O bispo relembra que Bento XVI ainda não renunciou (o que deve acontecer efetivamente dia 28 de fevereiro) e recebeu a notícia com surpresa, mas acredita que um bom papa virá.
Sobre a eleição, ele cita que não há nada definido. Diz isso com experiência, pois acompanha as escolhas dos papas desde João XXIII, em 1958. Dom Oneres conta que, naquela época estudava em Roma, e era dado como certo a eleição de certo cardeal. “Já o cumprimentavam como papa antes da eleição”. Quando a fumaça branca da capela de São Pedro subiu aos céus, a surpresa na escolha do nome foi geral. O mesmo aconteceu com Paulo VI, João Paulo I e João Paulo II.
O então cardeal Joseph Ratzinger, porém, era um dos favoritos, por estar entre os que governaram o Vaticano na vacância do trono de São Pedro após a morte de João Paulo II. As especulações giravam em torno do que o alemão conseguiria articular. Seu nome, porém, estava na sombra do hondurenho dom Oscar Andres Rodríguez Maradiaga. O desejo de um latino-americano ser o próximo papa continua.
O bispo exalta o trabalho de Bento XVI para dar unidade à igreja, uma vez que nomeou cardeais no mundo inteiro, dialogou com outras religiões e ainda tratou com transparência o problema da pedofilia dentro da igreja.
Repercussão em outras igrejas
Centro Evangelístico de Lages
Pastor Mauro Almeida
- Fomos surpreendidos pela notícia da renúncia do Papa Bento XVI. Nossa percepção sobre o assunto é de absoluta neutralidade por pertencermos a outro segmento do cristianismo. Todavia, por se tratar de uma autoridade eclesiástica de reconhecimento mundial, desejamos que o novo pontífice que será escolhio, venha ter uma postura firme e defensora dos genuínos ensinamentos bíblicos expressos na Escritura Sagrada, a palavra de Deus”.
Igreja Batista
Pastor Jota Machado
- Não há nenhuma implicação para nós evangélicos, especialmente para os batistas, que são reformistas. Nós somos uma renúncia ao catolicismo. Acredito que esse momento de renúncia dele deva haver afirmações que a gente não vá conhecer”. Pastor Jota cita o crença católica que o conclave é regido pelo Espírito Santo e levanta a questão: “será que Deus errou ao escolher Bento XVI?” Para ele, as escolhas são humanas, e a renúncia faz cair por terra a infalibilidade da Igreja Católica.
Futuro papa deve se encontrar com jovens no Brasil em julho
A Jornada Mundial da Juventude, que acontece em julho, no Rio de Janeiro contará com a presença do futuro pontífice. Isso é o que afirma o arcebispo da capital carioca Dom Orani Tempesta.
Em Lages, Marcelo Rosa Ramos é uma das pessoas que estão se organizando para participar do evento. Segundo ele, a Diocese de Lages está preparando uma excursão para o Rio de Janeiro.
Ele afirma que o compromisso é do pontífice, ou seja, independe de quem esteja exercendo o cargo papal. Marcelo conta que recebeu com surpresa a notícia da renúncia, apesar de já notar o cansaço físico de Bento XVI. Ao contrário de João Paulo II, que, mesmo doente dizia que jamais iria deixar o cargo, enquanto o futuro papa emérito já cogitou a renúncia por mais de uma vez.
Boff afirma que são duas personalidades numa pessoa
Apesar de serem a mesma pessoa, Joseph Ratzinger e o Papa Bento XVI eram duas personalidades diferentes. A opinião é do teólogo e professor universitário Leonardo Boff, brasileiro que conviveu com o líder católico que anunciou o fim de seu pontificado. Boff integrou a ordem franciscana e um dos expoentes da Teologia da Libertação.
“Uma coisa é o Ratzinger professor e acadêmico, que era extremamente gentil e inteligente, além de amigo dos estudantes. Dava metade do salário aos estudantes latinos e da África. Outra coisa é o Bento XVI, que exerce função autoritária e centralizadora, sem misericórdia com homossexuais e [adeptos da] camisinha”, disse Boff.
O teólogo define Ratzinger da fase pré-papal como um pastor e professor extremamente erudito e de fácil acesso. “Era pessoa simples que, ao se tornar cardeal, mudou de comportamento e passou a assumir posições duras. Tratava com luvas de pelica os bispos conservadores e com dureza teólogos da libertação que seguiam os pobres”.
Segundo Boff, dois aspectos caracterizaram o Ratzinger da fase posterior.
“Primeiro, o confronto com a modernidade, no encontro com as culturas e com outras religiões. Tinha a compreensão de que a Igreja Católica era o único porta-voz da verdade, e a única capaz de dar rumo a toda humanidade. Por isso, teve dificuldades com muçulmanos e judeus”.
O segundo aspecto tem origem à época em que era cardeal. “Ele pedia aos bispos que impedissem que padres pedófilos fossem levados aos tribunais civis. Na medida em que a imprensa mostrou que havia não apenas padres, mas também bispos e cardeais suspeitos dessa prática, o Vaticano teve de aceitar a realidade”, declarou Boff.
Já a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) divulgou nota ontem na qual classificou como sinal de “humildade e grandeza” a razão apresentada por Bento XVI para justificar a renúncia.
“Acolhemos com amor filial as razões apresentadas por Sua Santidade, sinal de sua humildade e grandeza, que caracterizaram os oito anos de seu pontificado”, diz o texto da nota da CNBB, assinado pelo presidente, dom Raymundo Damasceno Assis; pelo vice, dom José Belisário da Silva; e pelo secretário-geral, dom Leonardo Ulrich Steiner. De acordo com o texto, o papa é um “teólogo brilhante” e entrará para a história como o “Papa do amor”.
Na nota, a CNBB também se diz “grata” a Bento XVI “pelo carinho e apreço que sempre manifestou para com a Igreja no Brasil”.
Brasil tem 5 cardeais que participarão do conclave
Cinco cardeais brasileiros participarão do conclave que elegerá o sucessor de Bento 16. Segundo o Vaticano, há 119 cardeais aptos a votar. Para poder votar na escolha do papa, o cardeal precisa ter menos de 80 anos.
O Brasil nove integrantes no Colégio Cardinalício do Vaticano, mas quatro deles já estão além da idade limite. Os brasileiros que poderão votar são dom Cláudio Hummes, de 78 anos, ex-arcebispo, dom Geraldo Majella Agnelo, de 79, arcebispo emérito de Salvador, dom Odilo Scherer, de 63, arcebispo de São Paulo, dom Raymundo Damasceno Assis, de 76, arcebispo de Aparecida, e dom João Braz de Aviz, de 64, arcebispo de Brasília.
O catarinense dom Eusébio Scheid, arcebispo emérito do Rio de Janeiro e ex-arcebispo de Florianópolis, está fora do conclave por ter completado 80 anos em dezembro. Também ultrapassaram a idade limite Paulo Evaristo Arns, 91 anos, dom Serafim Araújo, de 88, e dom José Freire Falcão, 87.
Fotos: Valter Campanato/ABR e Thomas Michel
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