quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Soldado 109 relembra o horror de Monte Castelo

Soldado 109 relembra o horror de Monte Castelo
Lages, 21/02/2013, Correio Lageano, por Thomas Michel



A história contada por quem viveu a maior batalha brasileira da guerra



“Sofremos bastante lá nos Apeninos. Medo, frio, muito frio, desconforto e aquele constante odor de sangue velho e óleo diesel, que é o cheiro da guerra”. Assim, o correspondente de guerra Joel Silveira escreveu uma das grandes frases do jornalismo brasileiro sobre a batalha pela tomada de Monte Castelo. “Conheci o Joel”, disse o último pracinha vivo em Lages, o segundo tenente Kleber Villas Bôas Ramos, de 93 anos, vitalidade de 50 e uma memória de dar inveja a muito computador.



Hoje, às 17h30min, Kleber comemorará pela 68ª vez a vitória na tomada de Monte Castelo. Foram duas tentativas frustradas e uma terceira vitoriosa. Parte do 6º Regimento de Infantaria de Caçapava (SP), o pracinha fazia o reconhecimento de terreno antes das batalhas.



“Cutucava a onça com vara curta e fugia”, brinca. Por conta dessa função, assistiu a uma parte da batalha no posto de observação ao lado de alguns figurões da guerra, como Mascarenhas de Moraes, o marechal que hoje dá nome a uma das medalhas na farda de Kleber.



Apesar da distância temporal e da idade, Kleber lembra perfeitamente dos soldados nos fox hole, buracos individuais para proteção, espécie de minitrincheiras. A missão era tomar Monte Castelo para que os americanos pudessem seguir caminho.



Depois da segunda tentativa frustrada, Kleber conta que um general americano falou a Mascarenhas que os brasileiros não estavam preparados para situações difíceis. “O baixinho (Mascarenhas) disse para ele: agora você vai ver o que é bom para tosse”.
A artilharia pesada em cima do topo de Monte Castelo, onde estavam os alemães, foi o que ajudou na vitória. Depois de doze horas de muito sangue, mais de 200 baixas brasileiras, a bandeira verde e amarela tremulou no topo daquele alpe.



Mais que a guerra, valia a honra, a prova que os tupiniquins tinham braço para vencer, conta Kleber. Após a vitória houve grande festa, mas nada de detalhes sobre isso.



Ida para a guerra sem nenhuma certeza


Em 19 de setembro de 1939, o carioca de Barra Mansa (RJ) Kleber Villas Bôas Ramos fazia seu primeiro dia de serviço como militar em Caçapava (SP). Dezoito dias antes, a Segunda Guerra Mundial iniciara na Europa, mas o futuro pracinha ainda não sabia da notícia. “Depois veio o zum zum zum e aquela história dos afundamentos de navios brasileiros, que eu não acredito. Foram os americanos e não os alemães que fizeram aquilo”, conjectura.



Dias antes do Brasil declarar guerra, Kleber poderia pedir a licença do exército, pois já tinha tempo suficiente de trabalho. O então ministro Eurico Gaspar Dutra suspendeu todos os licenciamentos e muitos voluntários chegavam aos batalhões. “Houve euforia. Onofre Rodrigues de Aguiar, que era um cara muito legal, chegou dizendo que um alemão havia assassinado seu pai no porto e ele mataria um a unha. Fez isso e foi promovido”.



Já sargento, Kleber foi para o Rio de Janeiro sem saber por vias oficiais, mas já imaginando que iria para a guerra. Embarcou em um navio sem rumo. “Quando chegamos na altura de Fernando de Noronha, falaram que iríamos para a África. Quando passamos o estreito de Gibraltar é que chegou a informação que iríamos para a Itália”. Seu barco era o USS General Mann 112.



Foram dois anos, um no pelotão de patrulha de reconhecimento e informações e outro ajudando a recuperar e enterrar corpos. Nunca mais voltou a Itália, apesar de ter vontade. A última notícia que recebeu da terra onde lutou era que o cemitério de Pistoia estava abandonado.



Pediu baixa do exército e foi trabalhar em grandes empresas como Philips, Volkswagen e Scania, onde atuou como cobrador. Durante uma visita a Lages, conheceu uma garota. Kleber não foi vencido pelos alemães, mas se rendeu para uma descendentes deles, com quem vive até hoje. “Acontece”, brinca.



O que mais orgulha Kléber é ter defendido a democracia. Sentado na parte de trás do jipe, o pracinha diz que seu medo maior aconteceu em seu batismo de fogo, na tomada de um vilarejo. “Tremia igual vara verde”, conta. Seu superior disse para colocar a queixeira, que havia esquecido, o que, no fim das contas, ajudou na concentração durante a batalha.



A Macaca que adorna o suporte do vidro do Jeep Willis é uma homenagem ao time da Ponte Preta. Kleber conta que seus colegas eram, na grande maioria, de Campinas e torciam pelo clube mais antigo do Brasil. “Só eu que torcia para o Guarani ali no meio”, conta o pracinha.



Três amigos ficaram na Itália



O grupo de 18 homens do qual Kleber fazia parte teve três baixas durante o período em que esteve na guerra. O primeiro foi o cabo ‘Ditinho’. O grupo analisava uma área que alemães haviam deixado dia antes.



Praticamente um campo minado, todos estavam receosos em seguir e preferiam esperar o batalhão de engenharia para verificar se haviam minas. “Ele disse que iria só até na beira de um penhasco e já voltava”. A promessa não foi cumprida. Uma explosão matou instantaneamente o militar.



O segundo foi Oswaldinho, que faleceu ‘”em uma briga besta”, com outro brasileiro.
Ari Hauer, lageano, estava no front esquerdo, perto de Kleber, quando foi atingido. A missão era conquistar Montese. Antes de morrer, o serrano com cara de alemão passou o comando e disse para os outros soldados só pararem depois de a cidade ser conquistada.



CARTA do ex-combatente



Hoje, 21 de fevereiro, comemora-se a conquista do MONTE CASTELO (Itália), batalha que foi travada durante a II Grande Guerra Mundial, pela FEB.



Há 68 anos, em fevereiro de 1945, o Brasil escrevia uma das páginas mais brilhantes da sua história. A atuação da FEB nos campos de batalha na Itália, deve ser permanente lembrado para que as atuais e novas gerações de brasileiros reverenciem a memória dos bravos heróis, conforme declarou o General Hernani Ayrosa Galvão, já falecido, e que foi, também, um bravo combatente da FEB.



A FEB não foi defender a Itália. Fomos isto sim, expulsar os alemães da península italiana. Juntamente com outras forças aliadas, americanas, inglesas, francesas e outras mais, fomos defender a liberdade e a democracia que estavam ameaçadas pelo nazi-fascismo.



Há quem tente denegrir, de forma ignóbil, a imagem dos heroicos pracinhas brasileiros que lutaram contra o nazismo, mas como disse um ilustre jornalista lageano – “o vento rumoso que vem do passado repete glória eterna aos heróis que tombaram”



A FEB passará, seus generais passarão, aqueles que escalaram os montes nevados na Itália, cumprindo seu dever de brasileiros, serão esquecidos e a poeira do tempo consumirá da face da terra a lembrança dessa jornada que marcou uma época e assinalou uma geração. O tempo que tudo destrói, jamais poderá apagar a passagem da nossa história, como jamais extinguirá de nossa lembrança, os acontecimentos cruéis e dolorosos da nossa participação na II Grande Guerra Mundial.



Por isso, não deixemos perecer as páginas de heroismo conquistados pelos pracinhas na ll Guerra Mundial. Elas simbolizam a pujança de uma raça e o valor de um povo!




MONTE CASTELO



Havia já três meses que os americanos atacavam, sem sucesso, suportando vigorosos contra ataques e sofrendo pesadas baixas. No final de novembro de 1944, a FEB recebeu a missão de lutar no setor de combate na rota 64, justamente em frente ao poderoso baluarte alemão.



Batalhões necessitando de descanso, ataques dizimados, frio, lama e sangue, desalento e dor, eis o quadro da frente de combate ocupado pelos americanos, quando coube a FEB a missão de tão grande importância.



Monte Castelo era a parte mais sensível e, em posição privilegiada topograficamente. Ali se encontrava a famosa 232ª Divisão de infantaria alemã, comandada pelo General Von Glabens, oficial de estirpe do exército germânico. Também, os americanos da Task Force 45, atacaram por três vezes seguidas, sem sucesso.



Nós atacamos nos dias 24/11, 25/11 e 29/11, também sem sucesso. Por quê? O inverno rigoroso já se fazia presente. Não havia apoio da artilharia porque a intensa neblina impedia que os nossos  observadores localizassem  os pontos principais e vitais, onde as granadas da nossa artilharia pudessem atingir. A aviação idem, não havia teto para decolagem. Nesse período, sofremos pesadas baixas.



Tínhamos que tomar Monte Castelo. A ordem era atacar incessantemente. O pracinha acreditou em si e aguardou a sua hora. E ela chegou na fria e gelada madrugada do dia 21 de fevereiro de 1945. Sob o comando do bravo Coronel Caiado De Castro com seus 1º e 2º Batalhões, em arrancada fulminante, consegue atingir, às 17:30 horas, o baluarte alemão, conquistando definitivamente Monte Castelo.




Centenas de pracinhas da FEB tombaram na defesa de um patrimônio que não pode ser estrangeiro a nenhum povo: a liberdade e democracia! Hoje, decorridos 68 anos, os sobreviventes, já idosos, face enrugadas, cabelos embranquecidos, trazem na alma e no corpo, as cicatrizes que o tempo não consegue apagar. A FEB é eterna enquanto um de nós vivo for.



Kléber Villas Boas Ramos, 2º tenente reformado
Ex-combatente da II Guerra Mundial





Foto: Thomas Michel

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