sexta-feira, 8 de março de 2013

Mulheres presas por tráfico



Mulheres presas por tráfico
Lages, 09 e 10/03/2013, Correio Lageano, por Susana Küster



No Presídio Regional de Lages há 89 detentas, e muitas se envolveram com drogas por influência do companheiro ou filhos



80% das  mulheres que estão no Presídio Regional de Lages foram presas por envolvimento com drogas, a maioria por tráfico, outras porque roubaram para pagar dívida com traficante. Atualmente, Lages possui 89 detentas. O Correio Lageano entrevistou seis mulheres para mostrar um pouco da história delas. Os nomes divulgados são fictícios.



Das seis mulheres entrevistadas pelo Correio Lageano, cinco começaram a traficar para pagar contas. Uma delas, começou com o objetivo de juntar dinheiro e encontrar o assassino que matou dois dos seus filhos. A única entrevistada que diz que nunca se envolveu com drogas, foi presa porque furtava para ajudar no pagamento de contas.



Através dos depoimentos das detentas e do diretor do presídio, ficou claro que a motivação das mulheres para virar traficante é principalmente por dificuldades financeiras. “Nem sempre é o marido que influencia elas, mas é quase sempre isso”, completa o diretor do presídio Quintino Lauri Einecke.



É muito comum existir entre um casal que trafica, o rodízio ao assumir a culpa pelo crime, segundo ele. “Já presenciei casos que um diz: Se a Polícia Civil me pegar, desta vez, você não sabe de nada. Se for a Polícia Federal, eu sou apenas o motorista”.



Normalmente, ele diz que o casal não é preso junto. “Vem um ou vem o outro. É um certo rodízio, quando a mulher está presa, o marido está na rua...”. Para o rodízio ser feito, eles usam conhecimento legal, inclusive adquirido através de advogados. “Bons advogados conseguem separar a culpa dos dois somente para um, afinal, o trabalho deles é proteger o cliente”.



Letícia tem uma pena de nove anos e quatro meses, e, já cumpriu um ano e nove meses. Ela afirma que nunca se envolveu com drogas, mas sem saber, seu filho era traficante. “O juiz achou que eu acobertava e mandou me prender”. Ela confessa que nunca prestou muita atenção, mas tinha certeza que o filho era somente usuário de maconha. O filho foi apreendido por ser menor de idade. “Eu só sei que depois da minha prisão, ele se entregou para o crack, mas sei que ele está internado para se tratar”, conta.



Andressa está presa há dois anos e deverá sair no ano que vem do presídio para cumprir regime aberto. Não é a primeira vez dela atrás das grades. “Já trafiquei mas era pouca coisa, não pensei que dava cadeia, era tão pouca droga”, diz. Sua primeira prisão foi por um ano, depois disso, ela jura que nunca mais vendeu droga. “Meus clientes consumiam no meu bar. Agora eu não tinha nada a ver com isso, só pedia para elas usarem ali porque daí gastavam mais no bar”.



Bianca tem sete anos de pena, porque diz que roubava para ajudar a família no pagamento de contas. Por enquanto, ela cumpriu dois anos e dois meses. Quando foi feita uma revista geral no presídio regional, sua pena aumentou em um ano. “Disseram que eu engolia um celular e vomitava para usar. Mas qual ser humano que faz isso? Se eu tivesse feito tinha morrido”, conta.



Claúdia, assume que foi presa por tráfico e também por associação ao tráfico. Ao mesmo tempo, afirma que estava em um carro que não possuía drogas quando foi presa. Sua pena é de cinco anos por tráfico e três anos por associação ao crime. “Fui para Itapema de carona, e na volta não sabia que o rapaz tinha armas no carro. Quando a polícia parou, encontrou aquilo, eu não sabia que o rapaz também vendia droga”, diz ela, afirmando que nunca vendeu droga. Ela diz que seu filho mais novo usa drogas, mas ressalta que apesar de sua pena ser por tráfico, ela nunca exerceu o crime.



Tainá já cumpriu dois anos e oito meses de sua pena de sete anos e seis meses. Ela foi presa junto com a irmã e cunhado, porque todos traficaram crack por quatro meses.
Ela diz que começou vender droga para pagar contas, pois tem três filhos e é mãe solteira. O arrependimento dela é o mesmo de todas as presas. “Se soubesse o que poderia me acontecer não tinha feito isso. Tenho saudade dos meus filhos, não valeu a pena”, lamenta.



Cecília foi presa porque embalava crack em casa para um amigo seu vender. A pena dela é de quase nove anos, sendo que está atrás das grades há um ano e 11 meses. “Comecei para ajudar meu marido pagar as contas, depois continuei para juntar dinheiro e encontrar a pessoa que matou meus dois filhos. Não queria matar, mas mandar a polícia prender ela”, conta. Cecília é prendada, sabe bordar, costurar, aplicar enfeites em sandálias e várias outras coisas, que aprendeu para não passar dificuldade. “Achei que com o tráfico o dinheiro viria mais rápido. Mas não valeu a pena”, comenta.




Conselho garante direito dos presos


Órgão que representa a comunidade atua desde abril de 2012 e também pode solicitar recursos



Os direitos dos presos de Lages, possuem desde abril de 2012, um órgão de ação fiscalizatória e penal, denominado Conselho da Comunidade. O conselho é previsto no artigo 80 da Lei de Execuções Penais, e com o apoio do juiz corregedor dos dois presídios de Lages, juiz Geraldo Bastos foi implantado. “Estamos implantando diversos projetos de ressocialização de indivíduos que cumprem pena, e vamos supervisionar todos os projetos desenvolvidos nos presídios a partir deste ano”, diz Rodrigo Amorim, um dos conselheiros.




Além de garantir os direitos dos presos, o conselho pode solicitar recursos, contribuir com as políticas de atendimento de internos e egressos. “Não somos um conselho do presídio, somos um conselho da comunidade, formado por várias entidades”.



O conselho também atua na comunidade com atendimentos e encaminhamentos, de presos, vítimas e familiares, possibilitando acessar serviços da área social.



Mentes Livres reintegrará os presos



O projeto Mentes Livres, capitaneado pelo Instituto José Paschoal Baggio (IJPB), tem como principal objetivo reintegrar os detentos à sociedade, por meio do incentivo à leitura de livros, revistas e outros, sendo pioneiro a trabalhar com jornal.



Este será o maior projeto de leitura no sistema prisional de Santa Catarina. A ideia é que se torne um modelo para o Estado. O Mentes Livres começou, recentemente, a funcionar na Penitenciária Regional de Curitibanos com 59 detentos.


Como o local só tem detentos homens, o projeto, por enquanto, não atinge mulheres. A cada 30 dias de leitura, o apenado passa por uma avaliação que lhe dará direito à remissão, de acordo com a portaria estabelecida pelo sistema judiciário.



Fotos: Susana Küster

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