Abdon Batista, 21/05/2013, Correio Lageano, por Adecir Morais
A Triunfo Rio Canoas ameaça despejar outras famílias que desrespeitarem a ordem de desocupação
A família do agricultor André Bortoli Neto, de 55 anos, atingida da Usina Hidrelétrica Garibaldi, em Abdon Batista, no Meio-Oeste Catarinense, foi alvo de uma ação de despejo da Justiça. Ela ocupava uma área de seis hectares na localidade de São Paulo, oito quilômetros distante do Centro da cidade. Seis pessoas, dentre elas uma criança, ficaram sem ter onde morar.
A ação foi cumprida na última sexta-feira (17). Amparados por um oficial de justiça e policiais militares, funcionários da empresa Triunfo Rio Canoas, responsável pela usina, chegaram ao local com máquinas e derrubaram dois galpões, garagem, chiqueiro dentre outras instalações, e enterraram a madeira. Em apenas 20 minutos, tudo estava no chão. Apenas a casa, que foi desmanchada às pressas pela família, foi salva.
A propriedade era arrendada e usada para o cultivo de feijão, milho e fumo; e criação de gado. Até um açude foi esvaziado, e todos os peixes morreram. “Só deu tempo de desmanchar a casa. Eles chegaram e derrubaram tudo”, lamenta André Neto, que morava no local com a família havia 29 anos. O terreno pertencia a seu pai.
Neto diz que aceita deixar a propriedade, mas quer que a empresa lhe conceda uma carta de crédito ou reassentamento, que lhe foram negados. E discorda com os valores da indenização pagos pela empresa pelas instalações (casa, galpões, dentre outros), que chegou a R$ 56 mil.
Ele destaca que, agora, não tem para onde levar a família, tanto que está morando de favor na casa do cunhado, que fica perto do local. Segundo ele, a empresa sugeriu que fosse morar em uma área próxima, na mesma propriedade, mas o local não oferece infraestrutura, como instalações de água e luz. Além disso, o terreno é íngreme, de difícil acesso e impróprio para a construção da nova casa.
Família não tem direito à carta, diz empresa
Por meio de sua assessoria de imprensa, a Triunfo esclareceu que a família de André Neto não passou nos critérios da empresa para a concessão da carta de crédito ou reassentamento e, por isso, teve o pedido negado. E explicou que o dono da propriedade, pai de Neto, já foi indenizado.
O empreendimento afirmou, ainda, que a família tinha se recusado a deixar a propriedade, desobedecendo a uma ordem judicial. “Assim, coube à empresa recorrer à Justiça para ter acesso ao imóvel que adquiriu”. Outros proprietários, que estão na mesma situação, estão sendo notificados para deixarem as propriedades e, caso não o façam, serão despejados também.
“Gostaríamos que as pessoas obedecessem ao prazo para deixar a área, evitando este tipo de constrangimento para as famílias, uma vez que elas estão cientes de que devem deixar a área”, argumenta do advogado da Triunfo, Renato Marques.
A empresa informou que faltam menos de dois meses para a formação do lago, e das 549 propriedades atingidas, 408 já foram indenizadas. Resta, agora, apenas aguardar o desfecho de processos de desapropriação judicial que tramitam na Justiça.
Os atingidos que tiveram seus pedidos de carta de crédito ou reassentamento negados, afirmam que estão se mobilizando para protestar contra a decisão da empresa. Eles não descartam bloquear estradas ou se reunir em frente à sede de empresa, no Centro de Abdon Batista.
Usina
A usina vai atingir os municípios de Abdon Batista, Cerro Negro, Campo Belo do Sul, São José do Cerrito e Vargem. O investimento é de cerca de R$ 950 milhões. O lago deve começar a se formar em breve.
O empreendimento terá três geradores com capacidade para produzir 191,5 MW de energia elétrica, o suficiente para abastecer uma cidade de 500 mil habitantes, como Joinville. A extensão do reservatório será de 3,8 mil hectares.
Foto: Adecir Morais
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