Lages, 23 e 24/11/2013, Correio Lageano, por Núbia Garcia
Preservar espaços que representam a história, a cultura e guardam as memórias de uma população. Eis a finalidade dos tombamentos de patrimônios como públicos. De um lado, está o poder público, que garante a preservação por lei. Do outro, está a população que nem sempre tem a dimensão da importância desta ação e, como efeito, não sabe como cuidar e aproveitar melhor estes espaços.
Em Lages, são 18 imóveis tombados por lei estadual e mantidos através da Fundação Catarinense de Cultura. A maioria deles fica no Centro da cidade. Há apenas um imóvel, a Fazenda Cajuru, localizado no interior, na Coxilha Rica.
De acordo com o historiador e professor universitário Carlos Alberto Bertaiolli, o poder público é responsável pelos trâmites legais para o tombamento de qualquer imóvel. Para ele, este e outros fatores contribuem para o desconhecimento da comunidade, uma vez que nem sempre ela é consultada sobre o destino de um bem.
Equívoco
Bertaiolli acredita que o equívoco do poder público está em garantir o reconhecimento histórico ou cultural de um espaço, mas não contribuir para a manutenção. “Não são raras as vezes em que o proprietário não tem recurso ou interesse em manter o bem. O poder público peca na manutenção da edificação, no sentido de que poucas são as iniciativas de preservação da estrutura física e de promoção da educação patrimonial”, acredita.
Na sequência, Bertaiolli faz uma breve análise sobre os espaços tombados como patrimônio em Lages.
Grupo Escolar Vidal Ramos (Colégio Rosa)
Primeira Escola Pública construída na região, constitui-se como patrimônio histórico tanto em relação aos aspectos arquitetônicos como educacionais, uma vez que sua construção está associada à História da Educação Catarinense. O prédio passa por processo de restauração e, quando pronto, deverá abrigar um centro cultural.
Conventinho Frei Rogério
Associado à formação da cidade e à história do catolicismo na Serra Catarinense, integra os processos históricos constituintes das práticas religiosas locais e a influência destas na composição cultural do homem serrano.
Casa União
Os traços estéticos de sua fachada estão associados ao processo de modernização do espaço urbano da cidade. Localizado nas imediações da Praça Vidal Ramos Sênior (Praça do Terminal Urbano), o prédio incorporou o aspecto comercial que caracteriza esta região desde os primórdios da cidade.
Casarão Juca Antunes
Esta edificação revela características que a aproximam do estilo colonial, como a ausência de jardim, portas com saída direta para a rua e telhas no estilo colonial. Apesar dos últimos reparos, a edificação precisa de uma restauração mais efetiva, especialmente em sua estrutura. Está fechada para restauração há mais de um ano.
Catedral Diocesana
Um dos bens tombados mais visitados em todo o Estado. Revela aspectos arquitetônicos típicos do estilo gótico, como a rosácea e os detalhes ogivais, presentes na fachada da construção, as abóbadas em nervuras e vitrais no interior do edifício. Embora tenha estes traços, a edificação não é composta unicamente por este estilo artístico.
Prefeitura de Lages
Inaugurada no início do século 20 e construída com blocos de arenito, apresenta características estéticas típicas da arte neoclássica. A construção possuía inicialmente apenas um pavimento, sendo reestruturada posteriormente para abrigar a crescente demanda do Poder Executivo Municipal.
Antigo Fórum Nereu Ramos
Edificação integrante do processo de constituição e transformação do espaço urbano, assim como das relações de poder. Abriga no térreo o Museu Thiago de Castro, cujo acervo é um dos maiores do Estado, e no pavimento superior a Fundação Cultural do Município.
Colégio Santa Rosa de Lima
Instituição escolar confessional, instalada na cidade no início do século 20 juntamente com o então Colégio Diocesano (hoje Bom Jesus). A Instalação da escola reduziu a quantidade de jovens da elite que saíam da cidade para buscar no Rio Grande do Sul uma formação educacional.
Igreja Presbiteriana de Lages
Está associada à história da instalação das religiões protestantes na Serra Catarinense, que é marcada por intensas perseguições e dificuldades. As janelas e portas em formato ogival revelam traços típicos do estilo artístico gótico. Todavia a edificação não pode ser classificada como composta unicamente por este estilo
Edificações na Praça João Ribeiro
Associados à constituição da área central de Lages, três construções próximas que encerram em si a preocupação com detalhes estéticos que denotam as relações de poder que se constituem no espaço urbano, uma vez que a disposição dos bens públicos em uma área revela como essas relações permeiam os sujeitos que nela e a partir dela transitam na sociedade.
Cine Teatro Tamoio
A edificação está associada à história do teatro em SC. Na primeira metade o século 20, as atividades artísticas eram intensas na cidade, que recebia peças e festivais. Com o passar dos anos e com a retração econômica após o ciclo da madeira, as atividades culturais vivenciaram uma profunda diminuição, o que colaborou para a locação do espaço, que hoje abriga uma instituição religiosa.
Casarão na Rua Correia Pinto
A rua Correia Pinto constituiu-se ao longo do século passado como o espaço das elites. Muitos latifundiários possuíam casarões no local, onde se abrigavam quando vinham passar períodos na cidade. Ao longo do tempo, com o crescimento e transformação da área central, esta e muitas outras edificações se reestruturaram para abrigar casas comerciais. O prédio que abriga a Loja VF é uma das poucas construções remanescentes do período.
Fazenda Cajuru
No contexto da povoação e fundação da cidade, esta fazenda denota a importância das atividades agropastoris que caracterizam o modelo extrativista latifundiário que permeia a constituição do núcleo urbano.
O historiador Carlos Alberto Bertaiolli destaca outro ponto que merece atenção: muitas vezes o patrimônio preservado se torna objeto de admiração pela sua beleza e não necessariamente pelo seu sentido histórico.
Para ele, falta o entendimento tanto da população quanto do poder público de que o patrimônio tem que ser preservado principalmente para ser usado pela comunidade.
“As pessoas precisam frequentar e interagir com este espaço, porque a medida que isso ocorre, ela também conhece a história e o bem em questão, o que contribui para o desejo de preservar”, analisa.
Como exemplo, cita o Grupo Escolar Vidal Ramos (Colégio Rosa), que está passando por um amplo processo de restauração e deverá abrigar um centro cultural após sua conclusão.
Como a maioria dos patrimônios culturais está situada na área central da cidade, muitos são utilizados como espaços comerciais ou ligados a atividades religiosas, o que ofusca o sentido de sua preservação. “Estes espaços têm sua sobrevivência mais associada à atividade religiosa ou comercial do que ao seu aspecto histórico”, avalia.
Fotos:Núbia Garcia
Preservar espaços que representam a história, a cultura e guardam as memórias de uma população. Eis a finalidade dos tombamentos de patrimônios como públicos. De um lado, está o poder público, que garante a preservação por lei. Do outro, está a população que nem sempre tem a dimensão da importância desta ação e, como efeito, não sabe como cuidar e aproveitar melhor estes espaços.
Em Lages, são 18 imóveis tombados por lei estadual e mantidos através da Fundação Catarinense de Cultura. A maioria deles fica no Centro da cidade. Há apenas um imóvel, a Fazenda Cajuru, localizado no interior, na Coxilha Rica.
De acordo com o historiador e professor universitário Carlos Alberto Bertaiolli, o poder público é responsável pelos trâmites legais para o tombamento de qualquer imóvel. Para ele, este e outros fatores contribuem para o desconhecimento da comunidade, uma vez que nem sempre ela é consultada sobre o destino de um bem.
Equívoco
Bertaiolli acredita que o equívoco do poder público está em garantir o reconhecimento histórico ou cultural de um espaço, mas não contribuir para a manutenção. “Não são raras as vezes em que o proprietário não tem recurso ou interesse em manter o bem. O poder público peca na manutenção da edificação, no sentido de que poucas são as iniciativas de preservação da estrutura física e de promoção da educação patrimonial”, acredita.
Na sequência, Bertaiolli faz uma breve análise sobre os espaços tombados como patrimônio em Lages.
Grupo Escolar Vidal Ramos (Colégio Rosa)
Primeira Escola Pública construída na região, constitui-se como patrimônio histórico tanto em relação aos aspectos arquitetônicos como educacionais, uma vez que sua construção está associada à História da Educação Catarinense. O prédio passa por processo de restauração e, quando pronto, deverá abrigar um centro cultural.
Conventinho Frei Rogério
Associado à formação da cidade e à história do catolicismo na Serra Catarinense, integra os processos históricos constituintes das práticas religiosas locais e a influência destas na composição cultural do homem serrano.
Casa União
Os traços estéticos de sua fachada estão associados ao processo de modernização do espaço urbano da cidade. Localizado nas imediações da Praça Vidal Ramos Sênior (Praça do Terminal Urbano), o prédio incorporou o aspecto comercial que caracteriza esta região desde os primórdios da cidade.
Casarão Juca Antunes
Esta edificação revela características que a aproximam do estilo colonial, como a ausência de jardim, portas com saída direta para a rua e telhas no estilo colonial. Apesar dos últimos reparos, a edificação precisa de uma restauração mais efetiva, especialmente em sua estrutura. Está fechada para restauração há mais de um ano.
Catedral Diocesana
Um dos bens tombados mais visitados em todo o Estado. Revela aspectos arquitetônicos típicos do estilo gótico, como a rosácea e os detalhes ogivais, presentes na fachada da construção, as abóbadas em nervuras e vitrais no interior do edifício. Embora tenha estes traços, a edificação não é composta unicamente por este estilo artístico.
Prefeitura de Lages
Inaugurada no início do século 20 e construída com blocos de arenito, apresenta características estéticas típicas da arte neoclássica. A construção possuía inicialmente apenas um pavimento, sendo reestruturada posteriormente para abrigar a crescente demanda do Poder Executivo Municipal.
Antigo Fórum Nereu Ramos
Edificação integrante do processo de constituição e transformação do espaço urbano, assim como das relações de poder. Abriga no térreo o Museu Thiago de Castro, cujo acervo é um dos maiores do Estado, e no pavimento superior a Fundação Cultural do Município.
Colégio Santa Rosa de Lima
Instituição escolar confessional, instalada na cidade no início do século 20 juntamente com o então Colégio Diocesano (hoje Bom Jesus). A Instalação da escola reduziu a quantidade de jovens da elite que saíam da cidade para buscar no Rio Grande do Sul uma formação educacional.
Igreja Presbiteriana de Lages
Está associada à história da instalação das religiões protestantes na Serra Catarinense, que é marcada por intensas perseguições e dificuldades. As janelas e portas em formato ogival revelam traços típicos do estilo artístico gótico. Todavia a edificação não pode ser classificada como composta unicamente por este estilo
Edificações na Praça João Ribeiro
Associados à constituição da área central de Lages, três construções próximas que encerram em si a preocupação com detalhes estéticos que denotam as relações de poder que se constituem no espaço urbano, uma vez que a disposição dos bens públicos em uma área revela como essas relações permeiam os sujeitos que nela e a partir dela transitam na sociedade.
Cine Teatro Tamoio
A edificação está associada à história do teatro em SC. Na primeira metade o século 20, as atividades artísticas eram intensas na cidade, que recebia peças e festivais. Com o passar dos anos e com a retração econômica após o ciclo da madeira, as atividades culturais vivenciaram uma profunda diminuição, o que colaborou para a locação do espaço, que hoje abriga uma instituição religiosa.
Casarão na Rua Correia Pinto
A rua Correia Pinto constituiu-se ao longo do século passado como o espaço das elites. Muitos latifundiários possuíam casarões no local, onde se abrigavam quando vinham passar períodos na cidade. Ao longo do tempo, com o crescimento e transformação da área central, esta e muitas outras edificações se reestruturaram para abrigar casas comerciais. O prédio que abriga a Loja VF é uma das poucas construções remanescentes do período.
Fazenda Cajuru
No contexto da povoação e fundação da cidade, esta fazenda denota a importância das atividades agropastoris que caracterizam o modelo extrativista latifundiário que permeia a constituição do núcleo urbano.
O historiador Carlos Alberto Bertaiolli destaca outro ponto que merece atenção: muitas vezes o patrimônio preservado se torna objeto de admiração pela sua beleza e não necessariamente pelo seu sentido histórico.
Para ele, falta o entendimento tanto da população quanto do poder público de que o patrimônio tem que ser preservado principalmente para ser usado pela comunidade.
“As pessoas precisam frequentar e interagir com este espaço, porque a medida que isso ocorre, ela também conhece a história e o bem em questão, o que contribui para o desejo de preservar”, analisa.
Como exemplo, cita o Grupo Escolar Vidal Ramos (Colégio Rosa), que está passando por um amplo processo de restauração e deverá abrigar um centro cultural após sua conclusão.
Como a maioria dos patrimônios culturais está situada na área central da cidade, muitos são utilizados como espaços comerciais ou ligados a atividades religiosas, o que ofusca o sentido de sua preservação. “Estes espaços têm sua sobrevivência mais associada à atividade religiosa ou comercial do que ao seu aspecto histórico”, avalia.
Fotos:Núbia Garcia
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