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sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Escola itinerante mostra novo modo de dar aulas e obtém bom resultado no Enem

Escola itinerante mostra novo modo de dar aulas e obtém bom resultado no Enem
Lages, 08 e09/2012, Correio Lageano



Pela segunda vez consecutiva a escola municipal Maria Alice Wolff Souza figura entre as melhores de Lages. As aulas acontecem a cada dois dias em turmas pequenas e tanto transporte quanto alimentação são gratuitos para alunos e professores



No salão de uma igreja distante 17km da BR-282, atrás da localidade de Macacos, em Rancho de Tábuas, quatro quadros-negros pendurados em cantos rodeados por pequenos grupos de jovens formam parte do corpo discente responsável pela segunda maior nota do Enem em escolas públicas de Lages. O Maria Alice Wolff Souza fez 496,12 pontos, atrás somente do EEB de Lages (antigo Colégio Industrial). Para os professores, não é o ar puro do campo que trouxe esse resultado, mas a educação rural dos alunos.



Enquanto comem uma costela e arroz com feijão, os professores contam piadas e histórias sobre as idas ao interior de Lages. São oito comunidades atendidas por seis equipes da Escola Itinerante Maria Alice Wolff Souza.



O nome da escola homenageia a professora que fez o projeto da primeira escola itinerante, uma das pioneiras do país. A ideia de educar para evitar o êxodo rural começou a ser posta em prática no ano de 1974, mas não funcionou. Somente educação não era o suficiente para superar as políticas econômicas que forçam os pequenos agricultores a saírem do interior.



Os alunos do primeiro ano de Rancho de Tábuas falam em uníssono quando questionados se querem sair do campo ou ficar. “Sair”, dizem todos. A maioria naquela localidade é parente e todos têm bons exemplos para deixar o campo. O professor de biologia Almir Marcos Sedor fica feliz quando encontra ex-alunos. Dois dão aula no Maria Alice, outros estão concluindo mestrado, alguns foram para o exterior e a maioria cursa ou já terminou o ensino superior.



Marília Largura, do terceiro ano, vai deixar a escola itinerante após sete anos para ingressar no curso de direito da Uniplac. Para ela, a novidade será algo comum a maioria das pessoas: estudar em uma sala de aula. Ela passou sete anos no Maria Alice e antes disso nas escolas multisseriadas, com um professor e várias séries na mesma sala.



No Maria Alice os quadros negros são rodeados de carteiras em semicírculo. Cada turma precisa prestar atenção no seu professor. Para o diretor da escola, Antônio Célio Moraes o hábito de ter esse tipo de aula melhora o foco dos estudantes. Daniela da Silva Granemann, do primeiro ano, já estudou em escola regular e acha o método da itinerante mais interessante.



Daniela é raridade na escola, onde a maioria se conhece e estuda junto desde pequeno. Para o professor Almir, isso cria uma identidade e facilita a participação dos pais com a escola. “Implantar a escola itinerante em uma comunidade não é fácil, mas é bem mais difícil tirar”.



Professores ganham e trabalham mais


O diretor Antônio Célio Moraes explica que as pessoas que moram no interior são mais críticas e possuem um perfil mais participativo e comunitário. O que reflete nos alunos. “Todo professor da rede municipal quer trabalhar na escola itinerante,” diz Moraes.
Isso porque os alunos prestam mais atenção e quase não existem casos de indisciplina. Em resumo, a bagunça é pouca.



A disputa por vagas de docência no Maria Alice Wolff Souza acontece não somente porque os alunos são bons, mas porque existe uma gratificação de 48% do salário. “Se o professor vem só pelo dinheiro, ele não fica”, conta o professor de educação física Marcelo Barroso.



Isso porque eles precisam acordar as 4 horas da madrugada, pegar ônibus, andar em estrada de chão batido durante cerca de três horas, até chegar na escola e dar aula. Ficam no interior até as 17 horas trabalhando, depois fazem o caminho de volta. Passa-se mais tempo com a equipe da escola do que com a família.



Não bastasse isso, ainda é preciso a ajudar a limpar, organizar os salões e substituir o professor que está doente. A costela, saboreada no início da reportagem, os professores pagam. O município dá só o básico. “Quem pensa no próprio umbigo não dura muito tempo aqui”, fala Marcelo.


Objetivo da maioria dos alunos é ‘fazer faculdade’


Marília Largura quase deixou de estudar na escola itinerante. Iria para a cidade se sentar em uma cadeira comum e ser ‘mais uma’ no meio de outros estudantes. Esse plano mudou quando o irmão dela seguiu esse caminho e constatou que o Maria Alice Wolff Souza tinha melhor qualidade de ensino.



Ele hoje faz curso superior e é apenas ‘mais um’ no meio de tantos outros ex-alunos que seguiram para a faculdade. Algo que não é comum entre as escolas públicas, reconhecem os professores. Marília vai fazer direito na Uniplac e, entre seus colegas de terceiro ano, a grande maioria vai entrar na universidade já em 2013.



Já os estudantes do primeiro ano ainda não decidiram o que vão fazer, mas todos sabem que a área rural vai ficar apenas na memória. Quando questionados, todos demonstram querer cursar uma faculdade. Esta mentalidade, revelam os professores, ajuda a encorpar a quantidade de alunos fazendo o Enem. A consequência é a boa colocação no ranking lageano.



No ano passado foi feito um aulão na madrugada com todos os alunos das localidades na sede da escola, na avenida Belizário Ramos. Para fomentar a ideia de fazer faculdade, a escola promove viagens para outros municípios (em 2012 foram para Porto Alegre e Videira) além de ter contato direto com as universidades da região. “Eles vão na Uniplac, na Facvest, na Udesc e já conhecem como é o ensino superior”, explica o diretor Antônio Célio Moraes.



Marília já tem consciência que a tranquilidade do campo e a facilidade das pequenas turmas vai ser coisa do passado e já sente saudades da escola itinerante. “É mais uma etapa, mas a vida tem que seguir”, conclui.


Igual uma escola comum, mas sem sala


Da turma que dá aula no Rancho de Tábuas, o mais antigo é Almir Marcos Sedor. Ele começou na escola Itinerante há quase 17 anos. Na Coxilha Rica, conta ele, era um martírio lecionar no inverno. O frio acachapante não era contido pelas paredes de madeira que tinham generosas frestas. Nem as janelas poderiam ajudar a diminuir o frio, pois precisavam ficar abertas o tempo todo. Sem energia elétrica, não haveria luz suficiente para ministrar uma aula de janelas fechadas.



Hoje a situação é diferente. As estradas, que antes “quase não existiam” (na definição de Almir) agora estão transitáveis em sua maioria. No início o ônibus que levava os professores e os alunos possuía cadeiras e a aula poderia ser ministrada ali. Problemático, uma vez que apenas uma turma poderia ser atendida.



Hoje os micro-ônibus fazem o transporte e quase todos os lugares possuem salas e estão melhorando o ambiente onde há aulas. Na prática, a Secretaria da Educação usa os salões das igrejas e paga R$ 150 mensais de energia elétrica por cada local usado para a Mitra Diocesana. Já a estrutura dos lugares é melhorada com dinheiro arrecadado em festas e quermesses.



No caso de Rancho de Tábuas, existe até uma biblioteca. A Secretaria de Educação dispõe de computadores, notebooks e dois projetores para dar suporte às atividades pedagógicas. “Tudo que uma escola da cidade tem, nós temos”, conta o diretor do Maria Alice Wolff Souza, Antônio Célio Moraes.



Fotos:Thomas Michel