O Continente das Lagens, de Licurgo Costa, é raro, nem a Biblioteca Pública empresta os volumes
Poderia ser uma reportagem sobre economia, contando um caso de como a lei da oferta e da procura resultou na inflação dos preços de um item. Também poderia ser uma matéria sobre a busca incessante de um livro.
É um pouco de tudo, mas na verdade é a história da história de Lages resumida em tinta e papel, tão rica, que não coube inteira nas 1700 páginas escritas. É resultado de décadas de pesquisa do embaixador jornalista e escritor Licurgo Costa, lageano, personagem principal de uma peça que hoje é rara: o livro Continente das Lagens.
“São tão valiosos que quem os tem, não os vende”. A frase da professora Vanda Malinverni era uma resposta no Facebook ao pedido do advogado Rafael Oneda por uma edição do Continente das Lagens. Livro raro, que não deveria ser tão raro na opinião de Oneda.
O advogado ficou sabendo da existência do livro através da recomendação de seu pai. Leu todos os quatro volumes e gostaria de ter em casa, para repetir o ato de seu pai e passar os conhecimentos do livro para a próxima geração. Ele conta que tinha o Continente das Lagens na casa de seu pai, mas devido a um incêndio acabou perdendo a edição.
Em sua busca, conseguiu uma edição do segundo volume em um sebo de Porto Alegre. Hoje, mesmo no maior sebo virtual do Brasil (Estante Virtual), não se acha a obra máxima de Licurgo. “Achei uma pessoa que quer vender os quatro volumes, mas está pedindo 150 reais em cada livro”, ressalta Oneda, falando que está barganhando. O volume que o advogado possui custou R$ 50.
A única edição que circula foi publicada pela Fundação Catarinense de Cultura, há 30 anos. Para consulta, a Uniplac e a Biblioteca Pública dispõem das edições. A Uniplac é a única que empresta, e Oneda acredita que a história possa se perder caso não se faça uma republicação. “As pessoas consultam, e devem consultar, mas com o próprio manuseio, os livros vão se deteriorando”. De fato, na biblioteca pública algumas páginas são cópias das originais e um dos livros teve que ter a capa recuperada.
O que tem de tão especial?
Os personagens humorísticos Grilo Seco e Testa de Lampião costumam se referir a Licurgo Costa como ‘o apóstolo que escreveu a história do homem serrano’. Seu livro, o Continente das Lages, seria ‘a Bíblia’ dos lageanos. A analogia dá uma ideia da sua importância.
Toda a história de fundação de Lages foi baseada em documentação levantada durante várias décadas. As famílias pioneiras, genealogia das mais importantes e toda a história administrativa do município está registrada.
As atividades econômicas, episódios históricos e até algumas lendas que fazem parte da cultura. O advogado Rafael Oneda explica que sua parte favorita remete aos tramas da fundação de Lages. Ele já foi visitar o local da primeira vila do que viria a ser o município. Hoje restam apenas ruínas.
Também lhe interessam as listas dos primeiros profissionais. “Tem os primeiros advogados, alguns ainda atuam”, conta. Houve várias tentativas de fazer Licurgo atualizar o livro, mas todas sem sucesso. O autor morreu em 2002, aos 98 anos, e se dizia um ‘homem de três séculos’.
A explicação era porque havia vivido antes das duas guerras mundiais (quando, historicamente ele considerava o fim do século XIX), e a derrocada do império soviético (em 1989, com a queda do Muro de Berlim, que Licurgo considerava como início do século XXI). O Continente das Lagens pode deixar o leitor confuso com a idade do autor, porque parece que ele viveu quatro e não três séculos.
Foto: Divulgação
Nenhum comentário:
Postar um comentário