Lages, 04/02/2013,Correio Lageano, por Thomas Michel
Inaugurado em 22 de maio de 1986, o Museu Malinverni Filho mantém viva parte importante da cultura de Lages sob condições precárias. O artista, que chorou duas vezes por conta de malefícios que políticos fizeram a ele, agora tem sua memória relegada a uma ajuda de R$ 2 mil mensais da prefeitura.
Em quase 27 anos de história, a cidade teve seis chefes no Executivo, sendo que apenas um, Paulo Duarte, fundador do espaço, apreciou a história do maior artista lageano de todos os tempos. Dos secretários de Cultura, nenhum apareceu. Enquanto isso, sua premiada tela, Rua Taylor, apresenta rachaduras decorrentes da exposição à umidade excessiva e ao ambiente inadequado.
Não se pode reclamar que a prefeitura não ajuda, ressalta a viúva e idealizadora do museu, Maria do Carmo Lange Malinverni. São R$ 2 mil mensais e a cessão de funcionários que ajudam na manutenção. Foram duas reformas em 26 anos de história, nenhuma profunda. Agora, as madeiras que sustentam o telhado estão podres, ameaçam cair.
Um século após Lages parir um gênio, sua obra fica enfurnada em um ambiente sem as condições. O responsável pelo museu e filho do artista, Jonas Malinverni, conta que a umidade escorre pelas paredes no inverno e o único desumidificador não dá conta. “As tintas trabalham e a pintura racha”.
Talvez seja a continuidade do azar que Malinverni Filho tinha com os políticos. A vida curta de sua escola de artes se deveu a um protesto contra a prefeitura. Ele precisava da cessão de uma área de 14x3 metros (pertencentes ao município) atrás de sua escola para ampliar o barracão e dar aulas de escultura.
Vidal Ramos, irmão de Nereu (cuja história contamos na edição de sábado), não quis ceder. Maria do Carmo relembra a boa relação dos vizinhos com o político, o que pode ter pesado na decisão de não repassar o terreno.
Para a artista plástica Katja Volkert, é a área da cultura como um todo que foi deixada em frangalhos. Ela mesma parou de pintar por um período dada a falta de apoio que a sociedade como um todo tinha pelas artes. O estado do museu é só um exemplo. Maria é resignada, sabe que existem outras prioridades para a sociedade, como a saúde e a educação, mas acha que existe um dinheiro que nunca chega para a cultura.
Jonas ressalta que trabalha em projetos para captação de recursos continuamente, mas é raro quando consegue algo. “Estou esperançoso com o pessoal que está aí, parecem dispostos, espero que continuem assim”.
A garota do retrato 66 anos depois
Pintor acadêmico, Malinverni Filho era um dos raros versáteis que conseguia pintar paisagens, retratos e interiores (além de esculpir) com alta qualidade. Recém-casado, pediu para sua esposa posar. “Não tinha muito o que fazer e eu ficava sentada, conversando, enquanto ele pintava”, conta a viúva, Maria do Carmo Lange Malinverni. À época da pintura, tinha 20 anos, hoje, 86. A obra beirava a perfeição.
Uma jóia no pescoço, desenhada por Malinverni, foi feita exclusivamente para a esposa. O projeto foi rasgado, para que ninguém mais pudesse reproduzir aquela peça. Findada a pintura, um garoto fixou nos olhos azuis do quadro. Colocou um dedo em cada e puxou para baixo. A tinta, ainda fresca, escorreu. O artista corrigiu, mas segundo Maria, Malinverni achava que a beleza da obra não era mais a mesma depois do restauro.
Estátua Mãe: a obra póstuma do artista
A estátua Mãe, esculpida por Malinverni Filho, foi um marco técnico do artista e uma das duas obras que não viu completa em vida. Também foi a última decepção que teve com políticos. Nilton Rogério Neves, prefeito na época, comprou a obra que deveria ser colocada em frente à maternidade Tereza Ramos. O próximo mandatário, Áureo Vidal Ramos, prometeu que iria fundir em bronze a obra que já estava pronta, mas não o fez. O artista morreu dois anos antes da inauguração da estátua
Já tomado pelo câncer, Malinverni Filho tinha na cidade oito esculturas de bronze. Propôs uma obra que seria a homenagem para Anna Ângela Corsetti Malinverni e para sua esposa, Maria do Carmo Lange Malinverni, genitora de seus quatro filhos.
Maria posou como modelo para a estátua que já havia sido rabiscada em alguns cadernos. Certo dia, conta a viúva, Malinverni ria sozinho em seu ateliê. Quando subiu para ver o que acontecia, a mulher viu o bebê da estátua mãe no chão. O artista então questionou. “Por que você não segurou o bebê direito?”
Bem humorado, mesmo quando as coisas não davam certo, relembra a esposa, contagiado pelo clima materno proporcionado pela obra, chegou a escrever uma poesia.
Maria poupava seu marido doente das notícias que o prefeito não estava colaborando para a realização da obra. Dois anos depois, com Juarez Furtado, a estátua mãe foi inaugurada na praça da Santa Cruz, onde o casal Malinverni se conheceu. “Ela ficou ali provisoriamente durante 40 anos”, conta Maria.
Mãe
É tão grande meu Deus, tua graça
Que do nada este mundo fizeste,
Terminada esta prenda sem jaça
Com amor a beleza reveste.
Como tudo de Deus é perfeito,
Nem retoque se fez necessário.
Colocou-nos bem dentro do peito
O mais nobre e sensível sacrário
Dentro dele três letras gravou...
Onde toda beleza encerra
Esse nome que Deus consagrou
É o mais santo e querido da Terra
É com M que o nome começa
Depois A com til encimado
Pondo E nada mais interessa
Pois o nome está bem declarado!
"A amizade é um sentimento espontâneo que nasce no coração"
"Saudade é a presença de um passado que nos traz gratas recordações"
"Quando se sabe o que faz // Ao dar um passo para trás // Dá-se automaticamente // Mais de dois passos a frente
"Através de nossa sabedoria, deixamos indeléveis traços de nossa burrice"
"Com razão sou tudo; nada sou sem ela"
"É na meditação das coisas belas que o espírito se eleva e purifica".
"Saudade é a presença agradável do passado"
"A arte abstrata é um pensamento cheio de nada, concretizado pelos rabiscos desordenados de pseudo-artistas e interpretados pelos charadistas amantes de quebra-cabeças"
"Pelo amor que te consagro, domino meu sentimentalismo para que tua bondade não se condoa de minha fraqueza"
"A arte abstrata é um pensamento cheio de nada, concretizado pelos rabiscos desordenados de pseudo-artistas e interpretados pelos charadistas amantes de quebra-cabeças"
"É na meditação das coisas belas "
Centenário Malinverni Filho
Fim de semana
• Um século de Malinverni
• A briga com Nereu Ramos
Segunda
• Memória esquecida do artista
• Estátua Mãe, a obra póstuma
Terça
• O Estado esquece do artista
• Uma breve realização pessoal
Fotos :Thomas Michel
Inaugurado em 22 de maio de 1986, o Museu Malinverni Filho mantém viva parte importante da cultura de Lages sob condições precárias. O artista, que chorou duas vezes por conta de malefícios que políticos fizeram a ele, agora tem sua memória relegada a uma ajuda de R$ 2 mil mensais da prefeitura.
Em quase 27 anos de história, a cidade teve seis chefes no Executivo, sendo que apenas um, Paulo Duarte, fundador do espaço, apreciou a história do maior artista lageano de todos os tempos. Dos secretários de Cultura, nenhum apareceu. Enquanto isso, sua premiada tela, Rua Taylor, apresenta rachaduras decorrentes da exposição à umidade excessiva e ao ambiente inadequado.
Não se pode reclamar que a prefeitura não ajuda, ressalta a viúva e idealizadora do museu, Maria do Carmo Lange Malinverni. São R$ 2 mil mensais e a cessão de funcionários que ajudam na manutenção. Foram duas reformas em 26 anos de história, nenhuma profunda. Agora, as madeiras que sustentam o telhado estão podres, ameaçam cair.
Um século após Lages parir um gênio, sua obra fica enfurnada em um ambiente sem as condições. O responsável pelo museu e filho do artista, Jonas Malinverni, conta que a umidade escorre pelas paredes no inverno e o único desumidificador não dá conta. “As tintas trabalham e a pintura racha”.
Talvez seja a continuidade do azar que Malinverni Filho tinha com os políticos. A vida curta de sua escola de artes se deveu a um protesto contra a prefeitura. Ele precisava da cessão de uma área de 14x3 metros (pertencentes ao município) atrás de sua escola para ampliar o barracão e dar aulas de escultura.
Vidal Ramos, irmão de Nereu (cuja história contamos na edição de sábado), não quis ceder. Maria do Carmo relembra a boa relação dos vizinhos com o político, o que pode ter pesado na decisão de não repassar o terreno.
Para a artista plástica Katja Volkert, é a área da cultura como um todo que foi deixada em frangalhos. Ela mesma parou de pintar por um período dada a falta de apoio que a sociedade como um todo tinha pelas artes. O estado do museu é só um exemplo. Maria é resignada, sabe que existem outras prioridades para a sociedade, como a saúde e a educação, mas acha que existe um dinheiro que nunca chega para a cultura.
Jonas ressalta que trabalha em projetos para captação de recursos continuamente, mas é raro quando consegue algo. “Estou esperançoso com o pessoal que está aí, parecem dispostos, espero que continuem assim”.
A garota do retrato 66 anos depois
Pintor acadêmico, Malinverni Filho era um dos raros versáteis que conseguia pintar paisagens, retratos e interiores (além de esculpir) com alta qualidade. Recém-casado, pediu para sua esposa posar. “Não tinha muito o que fazer e eu ficava sentada, conversando, enquanto ele pintava”, conta a viúva, Maria do Carmo Lange Malinverni. À época da pintura, tinha 20 anos, hoje, 86. A obra beirava a perfeição.
Uma jóia no pescoço, desenhada por Malinverni, foi feita exclusivamente para a esposa. O projeto foi rasgado, para que ninguém mais pudesse reproduzir aquela peça. Findada a pintura, um garoto fixou nos olhos azuis do quadro. Colocou um dedo em cada e puxou para baixo. A tinta, ainda fresca, escorreu. O artista corrigiu, mas segundo Maria, Malinverni achava que a beleza da obra não era mais a mesma depois do restauro.
Estátua Mãe: a obra póstuma do artista
A estátua Mãe, esculpida por Malinverni Filho, foi um marco técnico do artista e uma das duas obras que não viu completa em vida. Também foi a última decepção que teve com políticos. Nilton Rogério Neves, prefeito na época, comprou a obra que deveria ser colocada em frente à maternidade Tereza Ramos. O próximo mandatário, Áureo Vidal Ramos, prometeu que iria fundir em bronze a obra que já estava pronta, mas não o fez. O artista morreu dois anos antes da inauguração da estátua
Já tomado pelo câncer, Malinverni Filho tinha na cidade oito esculturas de bronze. Propôs uma obra que seria a homenagem para Anna Ângela Corsetti Malinverni e para sua esposa, Maria do Carmo Lange Malinverni, genitora de seus quatro filhos.
Maria posou como modelo para a estátua que já havia sido rabiscada em alguns cadernos. Certo dia, conta a viúva, Malinverni ria sozinho em seu ateliê. Quando subiu para ver o que acontecia, a mulher viu o bebê da estátua mãe no chão. O artista então questionou. “Por que você não segurou o bebê direito?”
Bem humorado, mesmo quando as coisas não davam certo, relembra a esposa, contagiado pelo clima materno proporcionado pela obra, chegou a escrever uma poesia.
Maria poupava seu marido doente das notícias que o prefeito não estava colaborando para a realização da obra. Dois anos depois, com Juarez Furtado, a estátua mãe foi inaugurada na praça da Santa Cruz, onde o casal Malinverni se conheceu. “Ela ficou ali provisoriamente durante 40 anos”, conta Maria.
Mãe
É tão grande meu Deus, tua graça
Que do nada este mundo fizeste,
Terminada esta prenda sem jaça
Com amor a beleza reveste.
Como tudo de Deus é perfeito,
Nem retoque se fez necessário.
Colocou-nos bem dentro do peito
O mais nobre e sensível sacrário
Dentro dele três letras gravou...
Onde toda beleza encerra
Esse nome que Deus consagrou
É o mais santo e querido da Terra
É com M que o nome começa
Depois A com til encimado
Pondo E nada mais interessa
Pois o nome está bem declarado!
"A amizade é um sentimento espontâneo que nasce no coração"
"Saudade é a presença de um passado que nos traz gratas recordações"
"Quando se sabe o que faz // Ao dar um passo para trás // Dá-se automaticamente // Mais de dois passos a frente
"Através de nossa sabedoria, deixamos indeléveis traços de nossa burrice"
"Com razão sou tudo; nada sou sem ela"
"É na meditação das coisas belas que o espírito se eleva e purifica".
"Saudade é a presença agradável do passado"
"A arte abstrata é um pensamento cheio de nada, concretizado pelos rabiscos desordenados de pseudo-artistas e interpretados pelos charadistas amantes de quebra-cabeças"
"Pelo amor que te consagro, domino meu sentimentalismo para que tua bondade não se condoa de minha fraqueza"
"A arte abstrata é um pensamento cheio de nada, concretizado pelos rabiscos desordenados de pseudo-artistas e interpretados pelos charadistas amantes de quebra-cabeças"
"É na meditação das coisas belas "
Centenário Malinverni Filho
Fim de semana
• Um século de Malinverni
• A briga com Nereu Ramos
Segunda
• Memória esquecida do artista
• Estátua Mãe, a obra póstuma
Terça
• O Estado esquece do artista
• Uma breve realização pessoal
Fotos :Thomas Michel
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