terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Centenário do artista pode passar em branco

Centenário do artista pode passar em branco
Lages, 05/02/2013,Correio Lageano, por Thomas Michel



A Fundação Catarinense de Cultura, que expõe em sua página principal as comemorações dos 150 anos de Cruz e Sousa, não vai fazer menção alguma ao centenário de Malinverni Filho. Em Lages, a Fundação Cultural ainda está trabalhando em uma programação para o evento, mas não existe nada certo, uma vez que os trabalhos em relação ao tema começaram em janeiro.



Para que nem tudo passe em branco, o banheiro do museu será reformado, bem como alguns consertos emergenciais serão feitos e um projeto de captação de recursos está sendo confeccionado pela Fundação Cultural. Segundo o agente cultural Gilson Máximo de Oliveira, a prefeitura quer fazer uma reforma geral no Museu Malinverni Filho.



Nem um nome de rua Agostinho Malinverni Filho tem. Seu pai tem, porque esculpiu as pedras do Morro do Posto e as colocou na prefeitura e tem trabalhos no prédio rosa do colégio Vidal Ramos. Recebeu apenas duas homenagens depois de morrer: o nome do espaço de exposições na Câmara de Vereadores e um troféu referente à Estátua Mãe, sua última escultura.



Talvez reflexo de sua postura em vida. Logo depois de voltar para Lages, em 1947, um jantar foi oferecido em sua homenagem. Aceitou somente esta honraria em toda sua vida. Seu biógrafo, Asdrubal Guedes, conta que durante sua vida, Malinverni Filho era meio avesso às condições impostas pela alta sociedade. Usar terno, seguir as regras de comportamento e interação que os ricos impunham, não eram coisas para um sensível artista.



Sua viúva, Maria do Carmo Lange Malinverni, conta que o artista gostava mesmo era de bilhar e baile de São João. “Eu não ia aos bailes, mas fazia as fantasias dele e ele sempre voltava com o primeiro lugar”.



Eram as únicas honrarias que gostava. Certa vez, pediram a ele um quadro para uma exposição. Depois de algum tempo, recebeu uma carta em que o felicitava pela primeira colocação e que ainda receberia um prêmio em dinheiro. Desdenhou, dizendo que só havia mandado uma tela para ajudar a projetar a exposição, sem saber que era uma competição. Malinverni justificava que não queria competir com os outros artistas, amadores, que não tiveram a oportunidade de estudar na Escola Nacional de Belas Artes.



Curiosamente, uma de suas maiores amizades era o ‘amador’ Willy Zumblick, que pintava temas e formas que fugiam ao academicismo exaltado por Malinverni. Já o joaquinense Martinho de Haro, serrano e com formação superior em artes, não participava do círculo de artistas em que o lageano tinha contato.



Morreu em 14 de janeiro de 1971. Nenhum convite de missa ou de condolências à família, como acontecia corriqueiramente com os notáveis da sociedade. Lages, desde aquela época, preferia dar os louros aos políticos e ricos de dinheiro do que aos que levaram cultura para a cidade.



A escola que frustrou Malinverni Filho



Ao invés de seguir a profícua carreira na Capital Federal, Malinverni veio a Lages. Queria ensinar seus conterrâneos sobre a importância das artes. Montou uma escola onde chegou a ter 64 alunos, segundo um documento da época (número que pode não ser real, já que alguns se matricularam, mas não foram às aulas). Foram cinco meses ensinando quem quisesse aprender.



Um dos alunos, Geraldo Canali, conta que o professor era exigente, de um “rigor amável”. Punha os estudantes em frente aos moldes de gesso (ainda preservados no Museu Malinverni Filho) e os mandava desenhar. Ensinava perspectiva, sombras, como usar o carvão e o grafite...



Nenhum aluno foi muito longe porque a escola fechou cinco meses depois de abrir. Os Cr$ 450 mil (cerca de R$ 130 mil em valores atuais) que investiu em um barracão não foram suficiente para controlar seu ressentimento pela falta da apoio. “Era muito flagrante a amargura que ele tinha, apesar de quase nunca falar sobre isso”, conta Geraldo.



A escola fechou por um protesto, já que a prefeitura não queria ceder um terreno de 14m por 3m onde o artista poderia construir um espaço para ensinar escultura. “Fechei e joguei a chave fora”, escreveu a um amigo jornalista do Rio de Janeiro. Sinal que jamais reabriria, como realmente fez. Era a primeira escola de Belas Artes em Santa Catarina.



Uma breve autorrealização do artista



A viúva de Malinverni Filho conta que o desejo do artista era pintar telas sobre a história de Lages, assim como Cândido Portinari fez com o passado do Brasil. Não teve tempo para isso. Um pedido da prefeitura de Lages, porém, o fez realizar um pouco de sua aspiração.



Lages iria comemorar o bicentenário e uma estátua do fundador foi encomendada ao melhor escultor que tinha na cidade: Malinverni Filho. O artista foi a São Paulo e estudou para saber quem era seu retratado. Através de descrições, criou um bandeirante parrudo e barbudo, chegando no terceiro sítio de sua missão de criar uma póvoa para defender a colônia portuguesa da invasão dos castelhanos. A estátua mais ou menos diz onde Lages seria erguida.



Com o prazo curto, Malinverni conseguiu adequar seu cronograma com ‘horas-extras’. Se antes trabalhava de manhã e à tarde, parando apenas para um café e o almoço, agora também precisava esculpir de noite e madrugada.



A estátua de gesso foi enviada para São Paulo onde seria fundida em bronze. No transporte, o molde caiu e o artista teve que recuperá-la em tempo recorde. Hoje é possível ver no museu a cabeça de Correia Pinto separada de seu corpo, parte da história de Malinverni.



Na inauguração, Malinverni mostrou a Lages sua obra. Por conta do esforço, conta a viúva, foi nesta época que o artista manifestou os primeiros sintomas de seu câncer que o mataria cinco anos depois.



A estátua custou Cr$ 22 milhões, que segundo o filho do artista, Jonas Malinverni, daria para comprar ‘alguns Fuscas’. “Ele nunca teve carro e queria usar o dinheiro para comprar um Simca, mas a doença tomou todo seu lucro”.


"É no silêncio eloquente da tumba que a glória vivifica e resplandece
Malinverni filho"


"Com razão sou tudo; nada sou sem ela"



"A minha vontade férrea elegerá, sob a fiscalização severa de minha consciência a razão entre as forças do cérebro e do coração"



"Todo homem superior deixa na Terra marcas luminosas de sua inteligência e bondade"



"Todo aquele que procura a perfeição segue o caminho da felicidade"



"O homem ocupado sente a vida curta; o preocupado, longa demais e o desocupado não sente"


Centenário ­Malinverni Filho

Fim de semana

• Um século de Malinverni
• A briga com Nereu Ramos


Segunda

• Memória esquecida do artista
• Estátua Mãe, a obra póstuma


Terça


• O Estado esquece do artista
• Uma breve realização pessoal



Fotos: Thomas Michel

Nenhum comentário: