terça-feira, 2 de abril de 2013

Comoção e revolta em velório de menina



Comoção e revolta em velório de menina
Bocaina do Sul, 03/04/2013, Correio Lageano, por Adecir Morais



Ariele Ribeiro Machado, de apenas três anos de idade, morreu após ser atingida com uma tampa de fossa de concreto



Ao lado do caixão, uma coroa de flores, com assinatura da creche onde a menina estudava, trazia a mensagem “Ariele, você é a estrela que irá brilhar para sempre”. Logo acima, uma foto da criança vestida de anjinho e com as mãos prostradas, como se estivesse orando.



Ariele Ribeiro Machado, de apenas três anos de idade, morreu no início da tarde da última segunda-feira (2) após ser atingida por uma tampa de concreto, enquanto brincava com o irmão, de sete anos.  O acidente ocorreu no bairro Nossa Senhora Aparecida, no pátio de uma residência. A menina chegou a ser socorrida, mas não resistiu aos ferimentos.



Segundo os vizinhos, a tampa foi colocada escorada em um poste por funcionários da empreiteira PJL Construções Ltda EPP. O material seria usado em obras de esgotamento sanitário nas proximidades. A vítima, juntamente com o irmão, brincava no local e a tampa acabou caindo sobre ela.



O velório, que foi realizado no salão da igreja na localidade de Piúrras, cerca de 10 Km distante do centro da cidade, onde a família reside, foi marcado pela dor, tristeza e comoção dos familiares e amigos da vítima. Emocionados, todos tentavam encontrar uma resposta para a morte precoce da menina.



O pai, Antoninho Felipe Machado, de 42 anos, era um dos mais emocionados. Debruçado sobre o caixão, ele abraçava e beijava a filha, tentando aliviar a dor que sentia. “A bochecha dela esta bem molinha, até parece que está viva”, dizia ele, aos prantos.



Tampa estava mal arrumada, diz mãe



Com mais de 100 quilos e cerca de um metro de diâmetro, a tampa estava apoiada em um poste, segundo  os vizinhos, e as crianças brincavam ao redor dela. O terreno onde o material estava possui um leve declive, o que pode ter ajudado a provocar o deslocamento da tampa antes de cair sobre a menina.



“Acho que a culpa é de quem descarregou o material. A tampa ficou mal arrumada. Ela deveria ficar no chão, e não apoiada em um poste”, desabafou a mãe da criança, Márcia Aparecida Ribeiro de Souza, de 42 anos, cobrando uma explicação dos responsáveis pela obra.



Grávida de oito meses, ela estava na cidade para uma consulta médica e tinha ido à casa da sobrinha, perto do local do acidente. “Quando cheguei perto, vi minha filha esticada no chão. Ela não se mexia mais. Tinha muito sangue”, lembrou, demonstrando muita dor e revolta.



Prefeitura acusa empreiteira



Por meio de nota da assessoria de imprensa, a prefeitura de Bocaina do Sul disse que a responsabilidade pelo material que matou Ariele é da construtora que está executando obras de esgotamento sanitário no local. O material, incluindo a tampa e duas fossas sépticas, havia sido descarregado um pouco antes do acidente, e operários trabalhavam no local.



De acordo com a prefeitura, a construtora venceu licitação aberta pela gestão anterior para construção dos sanitários, porém, as obras não foram finalizadas e foi feito um aditivo para a conclusão dos trabalhos. Os recursos para a obra são oriundos do Governo Federal, por meio da Fundação Nacional de Saúde (Funasa).



Ainda segundo a prefeitura, devido ao fato de o material ter sido descarregado praticamente na hora do acidente, “não foi possível a fiscalização por parte da administração, e que os fiscais não sabiam do descarregamento”, comentou o assessor de imprensa, Rodrigo Bart.



Apesar disso, a nota diz que a prefeitura irá, nos próximos dias, por intermédio de sua assessoria jurídica, pedir explicação à empreiteira sobre o ocorrido. A empresa não quis falar sobre o caso.



Polícia Civil deve indiciar os responsáveis por homicídio



O policial civil da Delegacia de Bocaina do Sul Alexandre Poroski diz que foi aberto um inquérito policial para apurar o caso. Segundo ele, a polícia vai começar a ouvir as testemunhas hoje.



Além dos pais da menina, serão interrogados Maria Aparecida Santos, a primeira a chegar ao local do acidente, e os funcionários da empreiteira que estavam no local. Numa análise preliminar, ele diz que pode ter havido negligência de alguém.




Poroski destaca que a polícia quer saber quem deixou a tampa no local, em que condições ela estava, e por que as crianças brincavam ali. “O que houve foi uma morte violenta por acidente, e possivelmente os responsáveis deverão responder por homicídio culposo (quando não há a intenção de matar), por negligência, imprudência e imperícia (de alguém)”, adianta.



A polícia também aguarda o laudo do Instituto Geral de Perícias (IGP), com as causas da morte, que deve sair nos próximos dias. Entretanto, Poroski adianta que a menina não tinha nenhuma lesão externa, e que a morte foi provocada por uma pancada na cabeça.
Poroski explica que a polícia tem 30 dias para concluir o inquérito para encaminhar ao Judiciário. Caso haja necessidade, pode-se pedir a prorrogação das investigações.



Fotos:Adecir Morais

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