Lages, 08/04/2013, Correio Lageano, por Núbia Garcia
Série que apresenta os bairros de Lages, mostra a partir desta edição o Bela Vista, Pró-Morar e a Área Industrial
A série CL Comunidade vai apresentar nesta semana os bairros Bela Vista, Pró-Morar e Área Industrial. Juntos, eles têm mais de 4.400 moradores. O Pró-Morar, que nasceu como um loteamento do Bela Vista, na década de 1970 é hoje o que tem a maior população. A Área Industrial abriga diversas empresas e indústrias que representam significativo valor econômico para a cidade.
Ao longo das décadas, os bairros passaram por inúmeras mudanças e hoje são considerados pelos seus moradores excelentes locais para se viver. “Os moradores mais antigos contam que quando a avenida principal (Engenheiro Paulo Ribeiro) não tinha calçamento, por ser um morro ingreme, o ônibus nem subia. Quem vivia na parte mais alta tinha que descer até a parte baixa para pegar o transporte”, conta o morador Idelso Varela da Costa, que mora no Pró-Morar há 21 anos.
O Área Industrial oferece diversas vantagens para as indústrias que lá se instalam, dentre elas a facilidade de escoamento da produção, uma vez que fica às margens da BR-116 e não é muito distante da BR-282.
A proximidade entre o Bela Vista e o Pró-Morar é tamanha, que eles são tratados por muitas pessoas como sendo apenas um bairro. Mas quem vive lá, admite: a rivalidade entra os moradores já foi grande em outras décadas.
A população oficial do Pró-Morar, segundo o último Censo (2010) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), é de 3.369 pessoas. Mas este número é ainda maior, pois em setembro do ano passado, com a inauguração do residencial Valentim Elisboa Anacleto (Tozzo), outras 240 famílias se instalaram lá, através do Programa Minha Casa Minha Vida. Confira nas próximas edições matérias sobre as melhorias na infraestrutura dos bairros para absorver às novas famílias.
Corrente “separava” os dois bairros
A história de uma corrente que era usada para “dividir” os bairros no final da década de 1970, é quase uma lenda naquela região da cidade. Há quem diga que ela existia justamente para separar ambos, devido a grande rivalidade que existia entre a população.
O aposentado Ravadier Vargas Antunes, 71 anos, conhecido pelos vizinhos como Seu Delo, mora no Pró-Morar há 32 anos. Como todo morador antigo ele conhece cada história e desmistifica algumas crenças.
O aposentado Ravadier Vargas Antunes, 71 anos, conhecido pelos vizinhos como Seu Delo, mora no Pró-Morar há 32 anos. Como todo morador antigo ele conhece cada história e desmistifica algumas crenças.
Segundo ele, a corrente existiu mesmo. Foi instalada no cruzamento da avenida Engenheiro Paulo Ribeiro com a rua Eduardo Rambuch nos últimos anos da década de 1970 e retirada em 1981. “Tinha um guarda que cuidava, abria e fechava a corrente para as pessoas e carros passarem”, lembra.
Mas ao contrário da crendice popular, de que a corrente servia para “dividir” os bairros, Delo afirma que ela era usada para proteger o novo loteamento do Bela Vista que estava em construção, o Pró-Morar. “[A corrente] servia pro proteger as casas que estavam sendo construídas porque tinha gente que tava roubando os materiais de construção. Por isso, cada pessoa que queria ir para a parte alta, precisava se identificar e dizer o que ia fazer lá”, conta.
De rivais na política partidária a companheiros na vida particular
Seu Delo e dona Marli viveram intensamente a política no bairro onde construíram suas vidas
Juntos há nove anos, os aposentados Ravadier Vargas Antunes (Delo), 71 anos, e Marli de Fátima Petroske, 59 anos, construíram suas vidas no bairro Pró-Morar. A história do casal, que se uniu já na maturidade, passou da rivalidade na política ao companheirismo na vida pessoal.
Ativos politicamente no município, os dois sempre defenderam o Partido Progressista (PP), mas foram adversários por bastante tempo. Nas eleições municipais de 1992 e 1996, enquanto Marli fazia campanha em prol da própria candidatura à Câmara de Vereadores, Delo apoiava outro candidato da sigla. “Sempre fomos muito amigos, mas na política ele era meu rival e fazia campanha contra mim no bairro”, lembra em meio à risos.
Delo nunca concorreu à uma vaga no Legislativo, mas se elegeu por três mandatos como presidente da associação de moradores e esteve envolvido com a diretoria em outras duas gestões. “Teve uma época em que eu cheguei a apoiar o candidato adversário, mas não ganhamos”, conta Marli.
O aposentado conta que quando o Pró-Morar começou a crescer, não tinha unidade de saúde, por isso os moradores precisavam usar o postinho do Bela Vista. “Só que o pessoal da parte alta não gostava de descer pra usar o posto. Por isso aluguei uma casa e a prefeitura transferiu o postinho aqui pra parte alta. Pra pagar o aluguel, eu promovia várias promoções com os moradores, que sempre contribuíram”, afirma.
Histórias construídas no bairro Pró-Morar
Marli e Delo, cada qual com suas respectivas famílias na época, se mudaram para o bairro há mais de 30 anos. Segundo eles, neste período os dois bairros juntos não deviam ter mais que 150 moradores.
Com o passar dos anos e as afinidades os aproximando, eles passaram a dividir suas vidas e hoje a política, que era motivo de rivalidade, só é discutida dentro de casa na hora do cafezinho. Embora ainda partidários, nenhum dos dois atua politicamente no bairro hoje em dia. Delo aproveita a aposentadoria e Marli é dona de um Salão de Beleza. Nos tempos de atuação intensa na comunidade, Marli chegou a integrar a Pastoral da Criança. “A pesagem das crianças era feita na frente da minha casa”.
Em 1991, ela participou de um concurso promovido pela comunidade para eleger a “Mãe Rainha do Bairro”. “Era uma seletiva em que os próprios moradores votavam. Eu acabei sendo a vencedora entre umas 100 mães que participaram”, lembra com carinho.
A melhor lembrança de Marli a respeito do bairro em que vive, diz respeito ao empenho e união dos moradores. “A união da comunidade nos trabalhos comunitários era muito marcante. O pessoal se esforçou bastante para construir o que temos. Hoje as coisas já não são mais assim”, lamenta.
A melhor lembrança de Marli a respeito do bairro em que vive, diz respeito ao empenho e união dos moradores. “A união da comunidade nos trabalhos comunitários era muito marcante. O pessoal se esforçou bastante para construir o que temos. Hoje as coisas já não são mais assim”, lamenta.
Carreira foi construída no bairro
“Se hoje tenho alguma coisa na vida, agradeço a este bairro, porque tudo o que construí foi aqui”. Quem afirma é o aposentado Francisco de Souza Neto, 71 anos, que mora há 28 anos no Bela Vista e credita ao bairro o sucesso pessoal e profissional.
Em 1985, quando se mudou para lá com a família, Chiquinho (como é conhecido pelos amigos e familiares) resolveu deixar de se empregado e abriu o próprio negócio: uma mercearia que levou o nome de Dona Adélia, em homenagem à esposa Adélia Terezinha de Souza, 65 anos, com quem é casado há 48 anos. Mudando apenas de ponto, o negócio prosperou e a família o vendeu há cerca de seis meses. “Para poder aproveitar a aposentadoria”, brinca Chiquinho.
Além do comércio, Chiquinho também teve uma produtora de vídeo, foi fiscal de segurança e vendedor autônomo. Foi no Bela Vista que ele e a esposa criaram os quatro filhos.
Adélia tem irmãs que vivem em Cuiabá (MT). Para ficar mais perto da família, ela e o marido até tentaram morar em Cuiabá, mas não se adaptaram.
Fotos: Núbia Garcia
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