Santa Catarina, 23/09/2012,Agência Brasil
As secretarias de Saúde e de Agricultura do Estado de Santa Catarina
lacraram neste sábado (22) a sede da empresa Papenborg Comércio de
Laticínios Ltda., que produz o leite da marca Holandês, no município de
Biguaçu, na região metropolitana de Florianópolis.
Até o início da tarde deste domingo (23), 18 crianças que consumiram o
produto, embalado em pacotes plásticos, haviam sido internadas nos
últimos dias por intoxicação, a maioria delas menores de 2 anos de
idade. Algumas delas precisaram de ventilação mecânica. Dez já haviam
obtido alta e oito ainda permaneciam em hospitais das regionais de
Florianópolis e de Itajaí.
Laudos preliminares produzidos em laboratório pela Universidade Federal
de Santa Catarina (Ufsc) apontaram presença de nitrito até dez vezes
superior ao máximo tolerado em amostras de leite pasteurizado produzido
pela empresa.
Entre os sintomas da intoxicação por nitrito estão arroxeamento da
região em volta dos lábios e falta de ar. A substância induz a oxidação
do ferro da hemoglobina, o que impede o sangue de transportar oxigênio.
"Os internamentos são de crianças pequenas porque elas têm o organismo
mais frágil. Em adultos, a exposição contínua ao nitrito pode causar
câncer", explicou o médico infectologista Fábio Gaudenzi, diretor de
Vigilância Epidemiológica de Santa Catarina, em entrevista à Agência
Brasil. "A substância não deveria estar presente no leite, a não ser em
quantidade muito pequenas, porque ela até pode ser encontrada em adubos
que, no pasto, são consumidos pelos animais."
A intoxicação por nitrito é grave e pode levar à morte. "Os casos
notificados até agora têm sido relativamente leves, mas as pessoas
precisam estar atentas e procurar rapidamente os serviços médicos no
caso de algum sintoma", diz Gaudenzi. "O que chama a atenção é o fato de
que, entre os casos de internamento, há cinco crianças com menos de 6
meses e que deveriam estar sendo alimentadas exclusivamente por leite
materno."
O caso mais grave registrado até o momento é o de uma criança de 3
meses de idade. "Muitas vezes por falta de recursos financeiros, as mães
utilizam um produto que não é recomendado para a idade da criança",
observa o médico infectologista. "Uma criança nessa faixa etária deveria
estar sendo amamentada com leite da mãe ou consumindo um composto
lácteo, que pode custar até R$ 60 a lata."
Inicialmente, as autoridades sanitárias haviam determinado a retirada
do mercado de dois lotes do leite Holandês, mas uma nova reunião
realizada na tarde deste sábado (22) determinou a apreensão e a
inutilização de todos os estoques do produto, produzidos até a última
sexta-feira (21). Com prazo de validade de até cinco dias, o leite teria
distribuição restrita a algumas regiões de Santa Catarina.
"A fábrica está lacrada, sem produção de laticínios. Um grupo de
técnicos está fazendo um pente-fino no local", informou à Agência Brasil
a diretora da Vigilância Sanitária de Santa Catarina, Raquel Ribeiro
Bittencourt. "Nossa orientação para as autoridades locais nos municípios
e para o comércio em geral é para que o leite não seja vendido e seja
inutilizado.
Os demais produtos da empresa, como queijos, iogurte e nata, também
devem ser retirados das áreas de exposição para venda e retidos em
estoque até segunda ordem."
A suspeita das autoridades de Saúde de Santa Catarina é que a
contaminação por nitrito tenha sido causada por uma falha em um dos
equipamentos da empresa. A substância seria utilizada no processo de
limpeza das máquinas.
Para orientações relacionadas à assistência, diagnóstico e tratamento,
as pessoas devem ligar para o Centro de Informações Toxicológicas de
Santa Catarina, por meio do número 0800-643-5252.
A reportagem da Agência Brasil tentou ouvir os responsáveis pela
Papenborg Comércio de Laticínios, mas ninguém atendeu aos telefonemas
feitos para o único número de contato informado no site da empresa.
Foto:Divulgação/Ilustrativa