quarta-feira, 10 de julho de 2013

Médicos de Lages são contra programa federal

Lages,11/07/2013, Correio Lageano, por Joana Costa


Governo Federal quer que estudantes trabalhem dois anos para o SUS



Médicos de Lages têm se mostrado contra  o programa Mais Médicos, apresentado pela presidente Dilma Rousseff no início da semana. O Governo Federal sugere aumentar de seis para oito anos o tempo de formação dos estudantes de medicina. Nos dois últimos anos de curso, os acadêmicos devem atuar no SUS antes de receber o diploma.



O presidente do Conselho Regional de Medicina, Silvio Luís Frandoloso, declara que os médicos têm se posicionado contra o programa alegando que se trata de uma atitude “intempestiva” da presidente Dilma.



“A gente é a favor que haja um plano de carreira para os médicos mais novos”, afirma Frandoloso. Segundo ele, o que precisa para melhorar a qualidade da saúde pública no país, especialmente no interior, são investimentos na infraestrutura.



O problema não está distante. O médico cita cidades como Urubici e Ponte Alta, na região, onde existem clínicos gerais atuando, mas a estrutura é deficitária para atender a população. “Até aqui em Lages falta medicamento, imagine no interior”, analisa.



Sem um plano de carreira e estrutura para fazer o seu trabalho, os jovens médicos tendem a procurar cursos de especialização e dificilmente vão se instalar no interior. “Os médicos não têm confiança no plano governamental”, acrescenta.



A medida vale para estudantes de cursos públicos e privados e entraria em vigor a partir de 2015. Eles irão atuar na saúde básica e serviços de urgência e emergência de hospitais públicos, recebendo uma remuneração que varia de R$ 3 mil a 8 mil. Desta forma o tempo de graduação do estudante aumentaria em dois anos, sem contar a residência.



O que pensam alunos e professores de medicina


A estudante do quarto ano de medicina da Universidade do Planalto Catarinense (Uniplac) Caroline Ringvelski, de 22 anos, acredita que a medida é ruim, porque atrasaria o tempo de formação dos estudantes. “É errado obrigar a trabalhar num lugar sem estrutura”, afirma.



O seu colega Luciano Fiorese, de 27 anos, diz que a proposta seria justa se fosse uma alternativa oferecida a alunos de instituições públicas ou que tiveram o curso financiado pelo governo. “Quem tem bolsa até pode pagar pelo estudo trabalhando, mas não obrigado”, pondera.



Já o acadêmico Bruno Lunardi, de 23 anos, se incomoda com a proposta de importação de médicos do exterior, lembrando que sem a prova de revalidação do diploma. “Não se sabe a formação que eles têm”, diz.



O professor Celso Anderson de Souza lembra que essas propostas ainda não estão aprovadas e nem acredita que serão. “São conjecturas, a  presidente quer dar uma resposta às manifestações da população”, pondera.



O coordenador do curso de medicina da Universidade do Planalto Catarinense (Uniplac), Frederico Manuel Marques, sugere a criação de um plano de carreira federal, por meio de concurso, aliado a boa estrutura de trabalho como alternativa para sanar o problema da carência de médicos no interior. “Para a universidade implicaria numa responsabilidade maior liberar o profissional sem experiência para um trabalho que nem sempre corresponde aos anseios dos estudantes”, avalia o coordenador.



Proposta é eleitoreira, avalia presidente


O presidente da Associação Médica de Lages, Ângelo Muniz, diz que o governo está tentando colocar a culpa pela saúde ruim no país na classe médica. Para ele, o que deveria ser feito é investimento de 10% do PIB para a saúde.



Muniz vai além, declarando que o programa, que inclui a proposta de trazer 6 mil médicos do exterior para trabalhar no interior brasileiro, sem a prova de revalidação do diploma, é “um mecanismo eleitoreiro e marqueteiro” para agradar a população que vive nos “rincões” onde não há médicos. Lá os pacientes ficariam felizes em ter a figura do médico por perto, mas o profissional não tem condições de trabalhar.



Segundo ele, não importa se é um médico jovem, experiente, brasileiro ou estrangeiro. Nenhum deles terá como desenvolver um bom trabalho sem ter sequer esparadrapo, curativo, medicamento, estrutura ou condições mínimas de higiene. “Não existe milagre sem investir na saúde e na educação”, pondera.


  • 1  médico para cada mil habitantes é número sugerido pela Organização das Nações Unidas

  • 1,8 é a média nacional

  • 1,88 é a média de médicos para cada mil habitantes em Lages

  • 4 cidades têm

  • 2,5 médicos por habitantes: Florianópolis, Balneário Camboriú, Blumenau e Joaçaba

  • 1 cidade do estado tem menos médicos que o sugerido




Fotos: Joana Costa

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