Lages, 11/02/2013, Correio Lageano por Suzane Faita
A tragédia que matou 238 jovens na boate Kiss, em Santa Maria (RS),
mudou a cabeça dos jovens que frequentam as baladas em Lages. Agora, o
item segurança é uma questão importante na hora de escolher o local para
sair à noite. No fim de semana, a reportagem do Correio Lageano esteve
em casas noturnas para observar e conversar com os baladeiros.
Os jovens estão mais cuidadosos e atentos às saídas de emergência,
coisa que há três semanas ninguém se preocupava. Os baladeiros não
deixaram de curtir à noite, mas sem dúvida a atitude mudou. Observam o
local para saber para onde se dirigir em caso de incidente, e onde ficam
os extintores.
Os organizadores da tradicional Festa do Primeiro Dia, que reúne
estudantes da Universidade de Santa Catarina, entraram em contato com a
boate Serraria buscando informações sobre a segurança. “Ligaram e
pediram se estávamos com alvará em dia e de acordo com as leis”,
informou o gerente da boate, Magaiver de Gasperi.
Nova inspeção
Há pouco mais de uma semana, os proprietários da boate pediram uma
nova vistoria do Corpo de Bombeiros no local. A preocupação era revisar
os itens de segurança. “Aumentamos o número de extintores e tiramos uns
tecidos que tínhamos no teto, pois precisamos de um laudo de 2013
atestando que o tecido não é inflamável”, salientou Gasperi. Lembrando o
incidente na Kiss, argumentou na Serraria há quatro saídas de
emergência e o pagamento do ingresso não é na saída.
O gerente comentou que a baixa de público é normal pela época do ano.
Segundo ele, o movimento mais baixo nessa época se deve por serem
férias, que seu público principal é de universitários, especialmente do
CAV/Undesc.
Mães ficaram preocupadas
As estudantes Joice Borges Vieira, de 17 anos, e Camila Cardoso, de
16, não tinham saído ainda desde o que aconteceu em Santa Maria. Antes e
entrar na boate comentavam que deveriam procurar as saídas de
emergência. “Todo mundo está mais preocupado com a segurança. Antes
ninguém ligava para isso”, disse Joice. As mães das duas também fizeram
inúmeras recomendações. “Elas ficaram mais preocupadas”, contou Camila.
Jovem cogitou não sair mais à noite
A babá Patrícia de Liz (D), de 23 anos, a caixa Lurielli Harumi da
Luz (C), de 19, e a estudante Maikeli da Luz Chagas, de 17, ficaram
inseguras ao saírem na noite lageana. “Fiquei com medo de acontecer um
incêndio”, admitiu Lurielli. Para Maikeli, o pior foi pensar que esse
incidente poderia ser em Lages, em um local onde ela estivesse. “Na hora
pensei em não sair mais à noite, mas depois desisti, só estou mais
atenta as saídas de emergência”.
Professora contou as saídas e emergência
Josiane Vieira de Jesus, de 34 anos, e o marido saem ao menos uma vez
a cada 15 dias. No fim de semana em uma boate, o casal observou as
saídas de emergência pela primeira vez. “Antes nunca prestava atenção
nesse detalhe”, confessou. Embora atenta, garante que não vai deixar de
sair à noite por medo. “O que aconteceu lá (Santa Maria) serviu para
aumentar a segurança das outras casas e haver mais cobrança e
preocupação das autoridades”.
Músicos preocupados com locais de shows
O primeiro show, depois do incidente em Santa Maria, dos músicos
Jonathan Alves, de 18 anos, e Matheus de Oliveira, de 19, que acompanham
uma dupla de Lages, foi na sexta-feira de Carnaval em uma boate. Eles
comentaram que tocaram em diversos locais que não eram seguros, mas não
nunca deram importância para isso. “Agora observamos mais os locais, as
saídas de emergência, extintores e a lotação máxima”, explicou Matheus.
Os dois ainda receberam a orientação dos pais para não ingerirem bebidas
alcoólicas quando estiverem tocando.
Primeira vez depois da tragédia
O auxiliar de produção, Gutierrez Silva Scoz, de 18 anos, saiu com
amigos no fim de Carnaval, foi a primeira vez depois do incêndio na
Boate Kiss. “Saio com receio, tenho medo que as boates de Lages não
tenham segurança”, comentou. O estudante Bruno de Lima Castro, 18 anos,
estava mais tranquilo. Pela diferenças da estrutura das casas de Lages
com a Kiss, não vê tanto perigo, mas nem por isso deixou de observar as
portas de emergência. “Antes eu não me preocupava com isso (segurança),
mas vou continuar saindo mesmo assim”. O recepcionista Leonardo
Monteiro, de 18, e o estudante Ackson Lemos da Silva, de 18 anos,
contaram que os pais ficaram mais preocupados agora. “Dá um pouco de
medo”, confessa Ackson.
Amigas só ficam em boate se estiverem seguras
As estudantes Caroline Salmória, de 17 anos, Gabriela Rodrigues Lima,
de 18, e Karla Pinheiro, de 18, disseram que costumam observar o local
onde estão e se apresenta algum tipo de risco, como superlotação ou
falta de saídas de emergência, procuram outro lugar. “Minha mãe está
mais preocupada também com a infraestrutura dos locais”, contou
Gabriela. Para Caroline é preciso precaução, mas não exagerada. “Não tem
como deixar de fazer uma coisa para cada tragédia que acontecer”,
definiu.
Bombeiros também estão mais atuantes após a tragédia
Foi depois da tragédia na boate Kiss, em Santa Maria, no Rio Grande
do Sul, no final de janeiro, que a maioria das casas noturnas, bares, e
outros locais onde há grande concentração de pessoas, aumentaram a
preocupação com a segurança. O Corpo de Bombeiro de Lages também está
mais atento, tanto que identificou uma série de irregularidades no
Ginásio Municipal Ivo Silveira.
Da tragédia, continuam internadas 53 vítimas do incêndio na Kiss em
Santa Maria. A informação foi passada pela Secretaria de Saúde do Estado
no fim de semana. Dessas, 16 respiram com ajuda de aparelhos. No
domingo, 12 pessoas que estavam internadas por conta da tragédia
receberam alta hospitalar, sendo oito em Porto Alegre e quatro em Santa
Maria.
Familiares das vítimas que se reuniram no sábado, pretendem criar uma
associação de parentes das vítimas. O encontro foi realizado no
auditório do Colégio Marista, no centro da cidade, e uma comissão
voltará a se reunir no próximo dia 23, no mesmo local. O intuito é
buscar amparo legal para cobrar os resultados das investigações da
polícia e quanto às demandas indenizatórias. Neste primeiro encontro,
foram cadastradas 199 pessoas, familiares de 163 vítimas fatais. Os
outros 36 são parentes de sobreviventes. A criação do grupo também
contou com a presença do defensor público Andrey Melo.
O incêndio na Kiss, ocorrido no dia 27 de janeiro, deixou 238 mortos e
mais de cem feridos. O fogo começou quando a banda Gurizada
Fandangueira se apresentava. Segundo testemunhas, durante o show foi
utilizado um sinalizador — uma espécie de fogo de artifício chamado
“sputnik” — que, ao ser lançado, atingiu a espuma do isolamento
acústico, no teto da boate. As chamas se alastraram em poucos minutos.
Fotos: Suzane Faita